O avanço da inteligência artificial, dos serviços digitais e do armazenamento de dados deve aumentar a pressão sobre o sistema elétrico brasileiro nas próximas décadas. Nesse cenário, a demanda energética dos data centers poderá chegar a 70 gigawatts (GW) até 2050, segundo estimativa citada por Celso Cunha, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN).
Em entrevista ao Poder360, Cunha afirmou que a geração nuclear deverá integrar as alternativas consideradas para atender ao crescimento do consumo. Segundo ele, a produção estável das usinas nucleares pode contribuir para abastecer instalações que precisam funcionar continuamente, sem interrupções.
A discussão envolve o planejamento da matriz elétrica, a ampliação da capacidade de geração e a criação de condições para atrair investimentos destinados à infraestrutura tecnológica.
Data centers dependem de energia constante
Os data centers concentram equipamentos responsáveis pelo processamento, armazenamento e transmissão de informações. Essas estruturas dão suporte a serviços digitais, plataformas on-line e aplicações tecnológicas, incluindo sistemas que utilizam inteligência artificial.
Como operam 24 horas por dia, os centros de dados precisam de fornecimento elétrico confiável. Interrupções podem comprometer serviços e provocar prejuízos financeiros, o que torna a estabilidade do abastecimento um fator importante na escolha das fontes de energia.
Cunha destacou que as usinas nucleares apresentam fator de capacidade próximo de 92%. Esse indicador mede a quantidade de eletricidade efetivamente produzida em comparação com o máximo que poderia ser gerado durante determinado período.
O dirigente também alertou para os possíveis impactos de falhas na rede elétrica. Segundo ele, interrupções muito curtas podem causar perdas relevantes para instalações desse tipo.
Apesar de defender a participação da energia nuclear, Cunha não apontou uma única fonte como solução para toda a demanda. Ele mencionou a possibilidade de combinar geração nuclear, gás natural e energias renováveis para ampliar a oferta e atender às necessidades dos novos empreendimentos.
Pequenos reatores modulares são alternativa em discussão
Entre as tecnologias consideradas para expandir a geração nuclear estão os pequenos reatores modulares, conhecidos internacionalmente como SMRs. Esses equipamentos são projetados para permitir a fabricação de componentes em módulos e a implantação de unidades de menor porte.
De acordo com Cunha, o modelo pode facilitar a adequação da capacidade de geração às necessidades de cada empreendimento, com possibilidade de expansão gradual conforme o aumento do consumo.
A adoção dessa tecnologia, no entanto, depende de fatores como regulamentação, custos, licenciamento e viabilidade dos projetos.
O presidente da ABDAN também defendeu mudanças nas regras do setor nuclear brasileiro para ampliar a participação da iniciativa privada. Na avaliação dele, a atualização do marco legal e a criação de um programa contínuo de construção de usinas poderiam reduzir os custos dos empreendimentos.
Cunha estima que a construção de várias unidades dentro de um planejamento de longo prazo, com projetos padronizados e ganhos de escala, poderia diminuir os custos das obras em mais de 30%.
Decisão sobre Angra 3 envolve bilhões de reais
Outro tema abordado na entrevista foi o futuro da usina nuclear de Angra 3, no Rio de Janeiro. As obras estão paralisadas desde 2015, e a continuidade do projeto depende de uma decisão do governo federal.
Cunha argumentou que a interrupção definitiva também teria custos expressivos, incluindo despesas relacionadas à desativação segura da instalação, compromissos contratuais, multas e possíveis disputas judiciais.
Segundo os valores apresentados pelo dirigente, a conclusão do empreendimento exigiria um investimento total de aproximadamente R$ 25 bilhões. Já o abandono da obra poderia gerar despesas estimadas em R$ 23 bilhões, sem considerar os gastos anuais com a manutenção do canteiro, calculados em R$ 1,2 bilhão.
O presidente da ABDAN também mencionou um prazo de 120 dias estabelecido pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para que o governo defina os próximos passos do projeto.
Para Cunha, a falta de uma decisão prolonga os custos e mantém indefinido o aproveitamento da estrutura já construída.
Setor nuclear quer participar do Redata
A expansão dos data centers também abriu uma discussão sobre as fontes de energia que poderão abastecer os empreendimentos beneficiados pelo Redata, regime de incentivos fiscais criado para estimular investimentos no setor.
Cunha defendeu que a regulamentação do programa permita a participação da energia nuclear entre as alternativas de fornecimento. Segundo o dirigente, a definição das regras será importante para que empresas do setor possam planejar projetos e avaliar oportunidades de investimento.
A discussão sobre o abastecimento envolve não apenas a disponibilidade de eletricidade, mas também a confiabilidade da rede, os custos de geração e a capacidade de atender ao consumo crescente das instalações digitais.
ABDAN defende mudanças nas regras do setor
Entre as prioridades apontadas por Cunha estão a atualização do marco legal nuclear, a regulamentação da participação privada na exploração de urânio e uma definição sobre a continuidade de Angra 3.
A associação também defende o planejamento antecipado da geração de energia para acompanhar a expansão da infraestrutura digital brasileira.
Com a expectativa de crescimento dos data centers, a definição das fontes de abastecimento e das regras para novos investimentos deve ganhar espaço nas discussões sobre o futuro do setor elétrico. A participação da energia nuclear é uma das propostas apresentadas pela ABDAN, ao lado da combinação com outras fontes de geração.
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