Em algum momento, passamos a chamar de felicidade uma mistura de alegria intensa, prazer, animação e excitação diante do novo. A felicidade continua possível, mas foi estreitada: passou a ser reconhecida quase sempre nos momentos em que algo rompe o comum.
Alegria, prazer e felicidade não são a mesma coisa. A alegria costuma ter uma subida mais evidente, como na conquista, na boa notícia, no encontro esperado. O prazer é mais imediato, ligado ao alívio, ao desejo, ao conforto ou a uma experiência agradável. A felicidade tende a ser mais contínua. Uma pessoa feliz também sente tristeza, frustração, irritação e cansaço.
O problema é que nos acostumamos a respostas rápidas. A compra em poucos cliques, a comida sem espera, a notificação que interrompe o silêncio, o aplicativo que oferece outra pessoa antes mesmo que uma frustração seja elaborada. Aos poucos, espera, demora e continuidade começam a parecer defeitos.
Nos relacionamentos, isso aparece com força. No início, o prazer vem muito ligado à descoberta: o desejo, a expectativa, a vida sexual marcada pela novidade, a sensação de ser escolhido. Quando essa fase perde intensidade, muita gente entende a mudança do ritmo da relação como perda de felicidade ou até como fim do amor.
É claro que existem vínculos que machucam e precisam ser interrompidos. Mas também existem relações que apenas deixaram de oferecer a novidade do começo. E, quando tudo que não produz entusiasmo começa a parecer pouco, um dia comum parece vazio, uma relação estável parece sem graça e uma escolha madura parece pesada demais.
Enquanto felicidade for confundida com prazer constante e excitação permanente, qualquer pausa vai parecer falta, qualquer silêncio vai parecer vazio e qualquer rotina vai parecer prisão. Fomos expostos a tantas novidades, recompensas e estímulos rápidos que o comum passou a parecer pouco. Talvez por isso uma vida sem grandes picos seja confundida, tantas vezes, com uma vida sem felicidade.
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