A atuação de Fernanda Torres como Eunice Paiva (filme, Ainda Estou Aqui – 2024) é, do meu ponto de vista, superior às demais concorrentes que pude avaliar sob o juízo estético. Considero-a, na verdade, grandiosa. Por quê? Porque a interpretação de Fernanda nos faz sentir que a personagem atinge toda a potência com a qual imaginamos que ela tenha sido criada.
Do ponto de vista da filosofia da arte, pensando com Hegel em Cursos de Estética – Vol. 1, isso equivale a dizer que há uma correspondência entre a personagem criada no papel e a personagem de fato vivida no cinema. Dito de outro modo: não basta que a Eunice seja grandiosa enquanto idealização do escritor; é imperativo que a performance da atriz esteja à altura, realizando todo o potencial de que a personagem é investida e conferindo-lhe concretude.
Ao assistirmos Ainda Estou Aqui, o sentimento que nos toma é de que Eunice Paiva somente poderia ser vivenciada por Fernanda Torres. Não imaginamos outra atriz desempenhando melhor aquele papel; aliás, não conseguimos sequer conceber que aquela atuação fosse de outro jeito.
A entrega de Fernanda ultrapassa nossa escala de expectativa e consegue nos surpreender. Dentre todas as atuações do ano, talvez apenas a de Tilda Swinton tenha alcançado tal estatura; quem sabe em outro texto possamos desenvolver o porquê.
Três cenas, mas isso não é tudo
Três cenas exemplificam essa grandeza, embora houvesse muitas outras. A primeira é a fotografia na praia. No momento em que a família se diverte e se reúne para uma foto, Eunice avista carros das Forças Armadas passando ao longe. A câmera enquadra seu rosto brevemente. Sua expressão facial descortina uma preocupação que instila no espectador uma atmosfera de angústia.
Aquele olhar profundo já contém o germe da solidão que a acompanharia pelo resto da vida; ali, compreendemos que a família Paiva amargaria momentos terríveis. Com apenas um olhar Fernanda consegue nos comunicar uma urgência que somente depois se desenrolaria no futuro de Eunice. Ela capta uma atmosfera terrorífica que constitui o contexto histórico do filme.
A segunda cena é a do banho pós-prisão. Todo o horror do tempo de cárcere exala de um momento poderoso: Eunice, libertada, toma banho em sua própria casa. O corpo magro, nu sob o chuveiro, submetido a uma higienização de ânsia obsessiva. Movimentos nervosos e violentos, na iminência de fazer sangrar.
É, talvez, a cena mais angustiante do filme, presentificando toda a violência dos dois meses de prisão que não foram mostrados. O nojo do próprio corpo metaforiza o aviltamento de sua dignidade. Ela não diz uma palavra, não grita, não chora; porém, comunica o terror que os interrogatórios sombrios apenas sugeriram.
Uma grandeza semelhante ocorre em A Substância, quando a personagem de Demi Moore, Elisabeth Sparkle, frente ao espelho, tenta o retoque final da maquiagem para um encontro. Ela passa o batom e o retira sucessivas vezes, até borrar o rosto e nos fazer entender que a beleza e a juventude que um dia ela teve foi para sempre perdida.
A angústia que brota desse momento é avassaladora para a personagem e para o espectador, pela atuação de Demi Moore. Já em Anora, a única cena que alcança uma transcendência comparável à de Fernanda é o final, no carro com Igor. O gesto de sexo, que inicialmente parece afeição, torna-se uma explosão de ira e, logo após, um choro contido. É uma cena que ilumina a crueldade vivida pela personagem e o estilhaçamento de sua fantasia.
A terceira e última cena de Fernanda é a mais famosa: Eunice na lanchonete com os filhos. A câmera acompanha seu rosto enquanto ela observa as famílias ao redor. Todas parecem felizes, ao passo que na sua falta o marido, o pai. Há uma solidão jamais denunciada por palavras, mas sim por olhares. Olhares que não poderiam ser encenados por ninguém mais, a não ser por Fernanda.
A grandeza de Fernanda Torres traduz-se por uma performance constante e consistente ao longo de todo o filme, nivelando por cima a exigência posta para todas as concorrentes. Foi uma interpretação que não apenas cumpriu o roteiro, mas deu vida a uma personagem de quem dificilmente exigiríamos mais.
Sobre o autor: Francisco Neto Pereira Pinto é esposo da Ana Paula e pai do Théo e do Ravi. Doutor em Letras, é psicanalista, escritor e professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura – Mestrado e Doutorado da Universidade Federal do Norte do Tocantins. É autor de vários livros de literatura, dentre eles À beira do Araguaia.
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