A proximidade das eleições regionais transformou um programa de financiamento lançado por Washington em novo ponto de tensão entre Alemanha e Estados Unidos.
O chanceler Friedrich Merz advertiu que não aceitará o uso de recursos norte-americanos para influenciar partidos, candidatos ou o debate eleitoral alemão.
A declaração foi feita durante uma entrevista coletiva em Berlim, na quarta-feira (15). Merz afirmou que a Alemanha não interfere nas eleições dos Estados Unidos e cobrou o mesmo comportamento do governo de Donald Trump e de instituições próximas à administração norte-americana.
O alerta ocorreu após o Departamento de Estado abrir uma seleção para financiar projetos na Europa. A iniciativa, denominada “Desenvolvimento de Laços Civilizacionais, Resiliência Democrática e Estado de Direito na Europa”, prevê repasses entre US$ 1 milhão e US$ 3 milhões por projeto.
O programa dispõe de aproximadamente US$ 4,9 milhões e deverá selecionar entre duas e três propostas. As atividades poderão se estender por até 24 meses, com início previsto para setembro de 2026. As inscrições permanecem abertas até 12 de agosto.
De acordo com a chamada oficial, os projetos deverão promover democracia, Estado de Direito, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e direitos humanos. Também poderão abordar questões relacionadas à soberania nacional, à migração, à censura e ao chamado lawfare, entendido como o uso político de instrumentos jurídicos.
O documento menciona ainda a defesa de uma herança comum da civilização ocidental. Essa formulação provocou questionamentos sobre o perfil ideológico das organizações que poderão receber o dinheiro.
Entidades sem fins lucrativos, centros de pesquisa, instituições educacionais, empresas, indivíduos e organismos internacionais estão entre os grupos autorizados a apresentar propostas.
Merz estabelece limite para financiamento estrangeiro
Ao comentar o programa, Merz ressaltou que o financiamento de partidos alemães por fontes estrangeiras enfrenta fortes restrições legais. O chanceler afirmou que espera o respeito às normas nacionais por todos os países considerados parceiros da Alemanha.
“Não interferimos nas eleições deles”, declarou Merz. “Da mesma forma, não quero que o governo americano ou instituições próximas ao governo interfiram nas eleições alemãs.”
A legislação partidária alemã limita doações provenientes do exterior e admite apenas exceções específicas. As autoridades também podem examinar financiamentos destinados formalmente a organizações civis quando houver suspeita de que o dinheiro esteja sendo utilizado, na prática, para favorecer campanhas ou partidos.
O alerta não significa que o governo alemão tenha identificado uma transferência irregular ou comprovado uma tentativa de interferência. A manifestação possui caráter preventivo e foi feita diante da abrangência dos possíveis beneficiários e dos temas escolhidos pelo Departamento de Estado.
A preocupação está concentrada na possibilidade de organizações formalmente independentes utilizarem os recursos para promover narrativas alinhadas a determinadas forças políticas durante o período eleitoral.
Os critérios do programa se aproximam de pautas defendidas por movimentos conservadores e nacionalistas europeus, como o endurecimento das políticas migratórias, a valorização da soberania nacional e a oposição às regras europeias de moderação das plataformas digitais.
Críticos da iniciativa avaliam que essa seleção temática poderá favorecer grupos ideologicamente próximos ao governo Trump, mesmo que os recursos não sejam transferidos diretamente a partidos.
Antigos integrantes do governo norte-americano também questionaram a amplitude dos critérios de elegibilidade. Para eles, a inclusão de indivíduos, empresas e instituições públicas deixa espaço para interpretações sobre quais organizações poderão ser beneficiadas e como os projetos serão executados.
Estados Unidos negam apoio a partidos
O Departamento de Estado rejeita a acusação de que o programa tenha sido criado para interferir nas eleições europeias.
Segundo o governo norte-americano, os recursos não estarão disponíveis para partidos políticos. A administração Trump afirma que a iniciativa busca defender direitos humanos, liberdade de expressão, democracia, soberania e valores compartilhados entre Estados Unidos e Europa.
Washington argumenta que determinadas políticas europeias podem restringir o debate público, especialmente no ambiente digital. Integrantes do governo norte-americano vêm criticando normas de regulação das plataformas, medidas contra conteúdos considerados ofensivos e decisões judiciais envolvendo movimentos conservadores.
Para a administração Trump, o financiamento ajudará organizações europeias a desenvolver pesquisas, conferências, atividades culturais e projetos de apoio à sociedade civil.
A posição norte-americana não eliminou as dúvidas em Berlim. O governo alemão deverá observar não apenas os destinatários formais do dinheiro, mas também as campanhas realizadas, os materiais divulgados e possíveis ligações com grupos envolvidos nas eleições.
Caso sejam identificadas atividades destinadas a favorecer diretamente uma candidatura ou legenda, as autoridades poderão avaliar a aplicação das normas eleitorais e partidárias do país.
A fiscalização também poderá alcançar gastos com publicidade, produção de conteúdo, eventos, pesquisas de opinião e mobilização digital realizados por organizações beneficiadas.
Eleições aumentam preocupação com influência externa
A advertência de Merz ocorre em um momento delicado para o governo alemão. Eleições regionais previstas para setembro poderão ampliar a presença da Alternativa para a Alemanha, a AfD, especialmente no leste do país.
A legenda de direita aparece em posição competitiva na Saxônia-Anhalt e também disputa espaço em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Uma vitória expressiva poderia alterar a composição dos parlamentos estaduais e aumentar a pressão sobre os partidos tradicionais.
Durante a coletiva, Merz pediu aos eleitores que avaliem os resultados de seu governo e busquem informações além das publicações divulgadas nas redes sociais. O chanceler destacou as medidas adotadas para estimular a economia, preservar a segurança e manter a estabilidade política.
Merz também reafirmou que a União Democrata-Cristã, a CDU, não pretende formar alianças nem governar em parceria com a AfD. A posição segue a política conhecida como “cordão sanitário”, adotada pelos partidos tradicionais para impedir a participação da legenda em coalizões governamentais.
A possibilidade de organizações alinhadas a pautas nacionalistas receberem financiamento norte-americano acrescentou uma dimensão internacional à disputa.
Nos últimos meses, autoridades do governo Trump ampliaram as críticas às políticas europeias sobre imigração, liberdade de expressão e regulação digital. Representantes norte-americanos também estabeleceram contatos com entidades conservadoras e partidos de direita do continente.
Essa aproximação alimenta o receio de que os recursos públicos dos Estados Unidos sejam usados para reforçar grupos específicos, embora o Departamento de Estado negue essa finalidade.
Cooperação bilateral continuará
A advertência pública não representa um rompimento entre os dois governos. Alemanha e Estados Unidos mantêm relações econômicas, diplomáticas e militares relevantes e integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Merz e Trump já se reuniram para discutir defesa, comércio, segurança internacional e o futuro da cooperação transatlântica. O chanceler, porém, procura estabelecer uma separação entre essa parceria e a autonomia política alemã.
Na avaliação apresentada em Berlim, a cooperação não autoriza qualquer governo estrangeiro a interferir na formação da vontade dos eleitores.
A fiscalização dependerá da maneira como os projetos forem escolhidos e desenvolvidos. O simples recebimento de financiamento por uma entidade civil não comprova interferência eleitoral, especialmente quando as atividades possuem finalidade acadêmica, cultural ou relacionada à proteção dos direitos humanos.
O problema surgirá se o dinheiro for empregado para promover candidatos, financiar estruturas partidárias ou produzir campanhas destinadas a alterar o resultado das eleições.
A declaração de Merz funciona, portanto, como um aviso antecipado. O governo alemão afirma que acompanhará a origem dos recursos, os beneficiários e a execução dos projetos, sem acusar formalmente Washington de já ter violado as regras.
Com a aproximação das eleições regionais, o programa norte-americano deverá permanecer sob atenção das autoridades e dos partidos alemães. Berlim pretende preservar a cooperação com os Estados Unidos, mas sustenta que as escolhas eleitorais devem permanecer exclusivamente nas mãos dos cidadãos da Alemanha.
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