Duas cartas coletivas enviadas por funcionários do Consulado-Geral do Brasil em Hong Kong deram origem a uma investigação interna e à assinatura de Termos de Ajustamento de Conduta por integrantes da chefia da representação diplomática. Os relatos descrevem um ambiente marcado por insegurança, decisões unilaterais e receio de represálias.
As denúncias envolvem o cônsul-geral Wladimir Valler Filho e o conselheiro Hervelter de Mattos, que exerce a função de cônsul-geral adjunto. Os documentos foram encaminhados ao Ministério das Relações Exteriores e ao Sindicato Nacional dos Servidores do Itamaraty, o Sinditamaraty, nos dias 4 de março e 24 de abril de 2026.
Segundo os signatários, as condições internas teriam se deteriorado em razão de mudanças na distribuição das atividades, decisões tomadas sem consulta às equipes e manifestações interpretadas como ameaças de remoção ou punição funcional.
O Itamaraty confirmou o recebimento das cartas e informou que o material foi protocolado na Corregedoria do Serviço Exterior. O procedimento investigativo resultou na proposta e na assinatura de TACs pelos diplomatas denunciados. O Sinditamaraty também confirmou que as apurações produziram acordos publicados nos boletins de serviço números 120 e 122.
A celebração de um Termo de Ajustamento de Conduta não corresponde a uma condenação judicial nem comprova automaticamente todas as acusações apresentadas. O instrumento administrativo estabelece obrigações destinadas à correção de comportamentos e à prevenção de novas ocorrências, evitando, naquele momento, o avanço para um processo disciplinar mais amplo.
Cartas relatam esvaziamento de funções
Entre os episódios atribuídos à gestão de Wladimir Valler Filho está a retirada de atribuições de três servidoras. De acordo com os relatos, elas teriam sido afastadas de atividades relevantes sem justificativas suficientemente claras, permanecendo com funções reduzidas dentro do consulado.
Uma das funcionárias foi posteriormente removida para a Secretaria de Estado das Relações Exteriores, em Brasília. Os autores das cartas relacionaram a transferência à apresentação de críticas sobre a administração do posto e afirmaram que o episódio aumentou o temor de represálias entre os servidores.
O Ministério das Relações Exteriores rejeitou essa associação. Em resposta às denúncias, a pasta afirmou que a remoção da servidora não possui relação com os fatos analisados pela Corregedoria.
As cartas também atribuem ao cônsul-geral declarações segundo as quais ele poderia transferir assessores de diferentes níveis para outros postos. Para os funcionários, esse tipo de manifestação reforçava a percepção de insegurança e de concentração das decisões administrativas.
Outras alegações envolvem uma suposta redução da presença de Wladimir no consulado e a realização de viagens particulares durante dias úteis. Essas informações constam nos relatos dos servidores e não foram apresentadas como conclusões definitivas da investigação.
Os signatários afirmam ainda que mudanças importantes eram implementadas sem diálogo com os responsáveis pelos setores afetados. Na avaliação apresentada nas cartas, essa forma de administração teria produzido silenciamento, desmotivação e dificuldades para o funcionamento cotidiano da representação.
Conselheiro é acusado de usar apelidos ofensivos
As denúncias também descrevem comportamentos atribuídos a Hervelter de Mattos. Segundo os documentos, o conselheiro teria utilizado apelidos como “Bruxa 1”, “Bruxa 2”, “Bruxa 3” e “Fujona” para se referir a colegas de trabalho.
Outro relato afirma que uma funcionária teria sido chamada de “a empregada do cachorro”, em referência a tarefas relacionadas ao animal de estimação do chefe do posto. Hervelter também teria usado a expressão em inglês “I don’t see dead people” ao mencionar um contratado local.
As cartas atribuem ainda ao diplomata a declaração de que não entraria no setor consular porque o ambiente estaria “poluído” pela presença de determinada servidora.
Para os denunciantes, essas expressões contribuíram para a construção de um ambiente hostil e desrespeitoso. Os funcionários também afirmaram que Hervelter mencionava sua influência dentro do Itamaraty e ameaçava comunicar supostas desobediências diretamente ao cônsul-geral.
As acusações permanecem no campo dos relatos apresentados à Corregedoria. Os detalhes completos das conclusões administrativas e as manifestações individuais dos diplomatas sobre cada episódio não foram divulgados publicamente.
Problemas administrativos também foram citados
Além das questões relacionadas ao tratamento dos servidores, os documentos apontam possíveis falhas na gestão dos setores consular, cultural e administrativo.
Duas auxiliares recém-contratadas teriam passado a executar atividades na área de contabilidade, enquanto uma servidora que havia comandado o setor durante quase três anos permaneceu afastada dessas atribuições.
Os autores também afirmam que contratados locais foram orientados a exercer tarefas incompatíveis com os cargos e com as remunerações previstas. Na avaliação deles, as alterações deixaram áreas estratégicas sob a responsabilidade de profissionais ainda em período de adaptação.
Outro ponto envolve o acúmulo de mensagens institucionais. Conforme as cartas, a caixa de entrada do setor cultural chegou a registrar 129 e-mails sem resposta, alguns enviados desde novembro de 2025.
Entre as mensagens estariam pedidos de apoio institucional, propostas de eventos, contatos de instituições de ensino e ofertas de trabalho voluntário. Os funcionários classificaram a situação como uma espécie de paralisia administrativa na área cultural.
Hervelter teria atribuído o acúmulo à escassez de pessoal. Os servidores, entretanto, sustentaram que existiam integrantes da equipe disponíveis para auxiliar nas tarefas.
As denúncias também mencionam orientações para que subordinados ignorassem ou apagassem determinados e-mails, inclusive comunicações relacionadas à promoção da língua portuguesa e da cultura brasileira na região.
TAC prevê adequação de comportamento
O extrato do acordo relacionado a Wladimir Valler Filho foi publicado em 26 de junho. Pelo TAC, o diplomata comprometeu-se a observar os deveres de tratar as pessoas com urbanidade e de manter uma conduta compatível com o decoro exigido da função diplomática.
O prazo previsto para o cumprimento das obrigações é de 12 meses. Durante esse período, a administração do Itamaraty poderá acompanhar a conduta do chefe do posto e verificar o cumprimento dos compromissos assumidos.
O eventual descumprimento poderá levar à adoção de outras providências administrativas. O conteúdo público disponível não detalha todas as conclusões da investigação nem informa como cada uma das acusações foi avaliada pela Corregedoria.
O Sinditamaraty afirmou que continuará acompanhando a implementação das medidas, monitorando as condições de trabalho no consulado e cobrando o cumprimento dos compromissos assumidos pela alta liderança da representação.
A entidade também manteve seus canais abertos para receber novos relatos e defender um ambiente profissional seguro e respeitoso. O sindicato ressaltou a necessidade de fortalecer as estruturas destinadas à prevenção e ao enfrentamento do assédio e da discriminação dentro do Ministério das Relações Exteriores.
Wladimir Valler Filho permanece identificado oficialmente como chefe do posto brasileiro em Hong Kong. Hervelter de Mattos exerce a função de cônsul-geral adjunto e atua também como representante brasileiro junto ao Secretariado Permanente do Fórum de Macau.
O caso continuará sob acompanhamento administrativo e sindical. Embora os TACs demonstrem que o Itamaraty adotou providências depois das denúncias, os acordos não significam que todas as acusações relatadas nas cartas tenham sido formalmente reconhecidas como comprovadas.
Os servidores esperam que as medidas produzam mudanças concretas na rotina da representação, garantam proteção aos denunciantes e restabeleçam condições adequadas de trabalho no consulado brasileiro em Hong Kong.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.











