Itália e Eslovênia decidiram não integrar o chamado “Conselho da Paz” proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alegando incompatibilidades constitucionais e preocupações com o impacto da iniciativa sobre a ordem internacional vigente. A recusa ocorre às vésperas do lançamento oficial do conselho, previsto para o Fórum Econômico Mundial, em Davos, e evidencia o desconforto crescente de países europeus com a proposta liderada por Washington.
Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou, em entrevista à televisão estatal, que o formato apresentado entra em conflito com princípios fundamentais da Constituição italiana. Segundo ela, embora o país mantenha uma postura aberta ao diálogo, “alguns elementos são incompatíveis com o nosso ordenamento jurídico”, o que impede a adesão neste momento. A Constituição da Itália prevê que o país só pode participar de organizações internacionais que promovam a paz e a justiça em condições de igualdade entre os Estados — critério que, segundo a imprensa local, não seria atendido pelo novo conselho.
O ministro da Economia italiano, Giancarlo Giorgetti, reforçou a avaliação, classificando a participação do país como “problemática” diante das regras propostas, que incluem a exigência de uma contribuição financeira elevada e a liderança permanente de Trump no órgão.
A Eslovênia adotou posição semelhante. O primeiro-ministro Robert Golob rejeitou formalmente o convite, afirmando que o conselho pode enfraquecer instituições multilaterais já existentes. Para ele, o mandato amplo da iniciativa representa um risco à ordem internacional baseada na Carta das Nações Unidas. Golob confirmou que não participará da cerimônia de assinatura em Davos e optará por comparecer a uma reunião do Conselho Europeu, em Bruxelas.
Outros países do Norte da Europa também demonstraram cautela. Noruega e Suécia informaram que não pretendem aderir à proposta na forma atual. Autoridades norueguesas afirmaram que o texto levanta dúvidas que exigem mais negociações com os Estados Unidos, enquanto o governo sueco declarou que a versão apresentada até agora não atende às expectativas do país.
A França já havia recusado anteriormente o convite, episódio que elevou a tensão diplomática após Trump ameaçar impor tarifas elevadas sobre produtos franceses. Apesar da resistência europeia, aliados dos Estados Unidos seguem apoiando a iniciativa. Países como Israel, Egito, Hungria, Emirados Árabes Unidos, Argentina e Marrocos confirmaram participação, segundo o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, que afirmou que mais de 20 líderes mundiais já aceitaram integrar o conselho.
Inicialmente idealizado como um mecanismo para administrar Gaza no pós-guerra, o Conselho da Paz acabou ganhando um escopo mais amplo. A carta constitutiva não menciona diretamente o território palestino e descreve o órgão como uma instância com autoridade global sobre iniciativas de construção da paz. Questionado sobre a possibilidade de o conselho substituir as Nações Unidas, Trump respondeu recentemente que isso “poderia acontecer”.
A sequência de recusas europeias, no entanto, indica que a proposta enfrenta obstáculos políticos e jurídicos relevantes antes mesmo de sua formalização, colocando em dúvida sua legitimidade e alcance internacional.
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