A aproximação que vinha sendo negociada nos bastidores ganhou caráter público e eleitoral. Ao participar do encontro estadual do Partido Liberal, realizado no sábado (18), em Vitória, Lorenzo Pazolini, do Republicanos, confirmou sua entrada na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro e defendeu a pré-candidatura de Maguinha Malta ao Senado.
No mesmo evento, Flávio apresentou o ex-prefeito de Vitória como o nome apoiado pelo PL para a disputa pelo governo do Espírito Santo. Ao lado do senador Magno Malta, principal dirigente da legenda no estado, Pazolini assumiu compromissos que praticamente consolidam a união entre os dois grupos políticos. A formalização jurídica da coligação, entretanto, ainda depende das convenções partidárias, realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto.
O movimento oferece vantagens imediatas ao projeto de Pazolini. O PL possui uma militância mobilizada, forte identificação com o eleitorado bolsonarista e uma estrutura partidária capaz de ampliar a presença da campanha nos municípios capixabas. Em contrapartida, o republicano passa a carregar os conflitos, as rejeições e as controvérsias vinculadas aos principais integrantes da nova aliança.
A candidatura ao governo deixa, portanto, de ser exclusivamente estadual. A partir da declaração de apoio a Flávio Bolsonaro, Pazolini passa a ser avaliado também pela posição que decidiu assumir na disputa nacional.
O peso das controvérsias nacionais
Flávio Bolsonaro chega à campanha no Espírito Santo enfrentando questionamentos relacionados ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
O senador confirmou ter solicitado recursos ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mas afirma que a operação envolveu patrocínio privado para uma produção independente. Flávio nega ter recebido qualquer vantagem pessoal ou oferecido benefícios em troca dos recursos. O episódio permanece sob forte escrutínio político e jornalístico.
A pré-campanha também foi atingida pelo rompimento público entre Flávio e Michelle Bolsonaro. Após expor divergências com o enteado e reclamar de ataques contra aliados, a ex-primeira-dama deixou a presidência nacional do PL Mulher.
A saída de Michelle possui relevância eleitoral porque ela construiu uma rede própria de apoiadores, principalmente entre mulheres conservadoras e integrantes do segmento evangélico. A crise pode dificultar a tentativa de Flávio de manter unido o eleitorado identificado com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao aderir integralmente à campanha presidencial do senador, Pazolini passa a compartilhar tanto os possíveis benefícios eleitorais quanto os desgastes decorrentes desses episódios.
Magno Malta também entra na conta
Outro componente delicado da aliança é a presença de Magno Malta. Embora o senador tenha desistido de disputar o governo e colocado a estrutura do PL à disposição de Pazolini, ele deverá ocupar posição central na campanha estadual.
Pesquisa Quaest divulgada em 16 de julho mostrou Magno Malta com rejeição de 55%, o maior índice entre os nomes testados para o governo do Espírito Santo. O resultado representou crescimento em relação a levantamentos anteriores.
A rejeição de um aliado não é automaticamente transferida para outro candidato. No entanto, será difícil separar a imagem de Pazolini da liderança de Magno durante uma campanha na qual o senador deverá atuar como articulador e principal cabo eleitoral da própria filha.
Pazolini ganha acesso a uma parcela organizada do eleitorado conservador, mas corre o risco de enfrentar maior resistência entre eleitores de centro, independentes e conservadores que não mantêm identificação com as alas mais ideológicas do bolsonarismo.
A vaga de Maguinha e o impasse no Senado
O apoio público de Pazolini a Maguinha Malta alterou diretamente a montagem da chapa para o Senado. Durante o encontro do PL, o pré-candidato ao governo defendeu a presença de uma mulher identificada com valores cristãos e conservadores na Câmara Alta, consolidando a filha de Magno como uma de suas escolhas preferenciais.
O acordo, porém, aumenta a pressão sobre outros nomes que também reivindicam espaço no grupo.
Sérgio Meneguelli, atualmente no PSD, já declarou que pretende disputar exclusivamente o Senado. O deputado estadual afirma que não aceitará concorrer novamente à Assembleia Legislativa nem buscar uma vaga na Câmara dos Deputados. Pesquisas realizadas ao longo da pré-campanha colocaram Meneguelli entre os nomes competitivos para uma das duas cadeiras em disputa.
O deputado federal Evair de Melo também informou que pretende manter sua pré-candidatura, apesar do apoio concedido pelo PL a Pazolini e da preferência por Maguinha Malta. Carlos Manato e outras lideranças conservadoras igualmente manifestaram interesse na disputa.
O desafio será definir quem ocupará a segunda vaga na chapa ao Senado. Ao hipotecar apoio antecipado a Maguinha, Pazolini reduziu sua margem de negociação com o PSD, com setores do próprio Republicanos e com candidatos que esperavam integrar a composição majoritária.
Contradição com o comando nacional
A decisão de Pazolini também contrasta com a posição apresentada pelo comando nacional do Republicanos.
O presidente da legenda, Marcos Pereira, indicou que o partido poderia permanecer neutro na disputa presidencial. Em nota, o Republicanos negou ter formalizado apoio nacional a Flávio Bolsonaro, embora dirigentes das duas siglas continuem negociando alianças estaduais.
A diferença permite que Pazolini mantenha sua posição regional, mas amplia a percepção de que o ex-prefeito escolheu um caminho mais alinhado ao PL do que a direção nacional de seu próprio partido.
Aposta com ganhos e riscos
Pazolini conseguiu aquilo que buscava: evitar uma candidatura própria do PL ao governo e incorporar parte do eleitorado bolsonarista ao seu projeto para o Palácio Anchieta.
O preço será administrar uma campanha mais ideológica, enfrentar as rejeições acumuladas pelos aliados e reorganizar uma chapa ao Senado com mais interessados do que vagas disponíveis.
A aliança pode consolidar Pazolini como principal representante da direita na disputa capixaba. Também pode afastar eleitores moderados e provocar rupturas com lideranças que esperavam tratamento prioritário dentro do grupo.
O ex-prefeito atravessou uma fronteira política importante. A partir de agora, qualquer avanço ou crise envolvendo Flávio Bolsonaro, Magno Malta e a disputa pelo Senado terá reflexos diretos sobre sua candidatura ao governo do Espírito Santo.
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