A escolha de Anthony Garotinho pelo Republicanos não o transforma, de imediato, no favorito ao Governo do Rio. Produz, no entanto, a mudança mais relevante da disputa estadual desde o início das articulações partidárias: Eduardo Paes (PSD) deixa de enfrentar um campo adversário concentrado e passa a conviver com um concorrente experiente, conhecido em todo o estado e capaz de disputar parcelas do eleitorado que estavam sem um endereço político definido.
A Comissão Executiva Estadual do Republicanos aprovou o nome de Garotinho por unanimidade. A decisão, tomada no sábado, dia 18, será submetida à convenção estadual marcada para o próximo dia 25. O partido informou que considerou pesquisas qualitativas e quantitativas antes de encerrar a disputa interna entre o ex-governador e o ex-prefeito de Miguel Pereira André Português.
Garotinho obteve a legenda sem controlar sua direção estadual. Essa circunstância torna sua vitória interna ainda mais significativa. O Republicanos possui comando próprio, interesses parlamentares e compromissos nacionais que nem sempre coincidem com os projetos pessoais do ex-governador. Durante meses, parte da cúpula partidária trabalhou pela candidatura de André Português e tentou conduzir Garotinho para uma disputa proporcional.
Ele recusou.
Ao deixar claro que não aceitaria concorrer a deputado federal, Garotinho obrigou o partido a escolher entre mantê-lo na eleição majoritária ou correr o risco de perdê-lo da campanha. A direção acabou seguindo o nome que apresentava maior densidade eleitoral e melhores condições para dar visibilidade à chapa.
A candidatura nasce menos de uma concessão do Republicanos e mais de uma combinação de circunstâncias que tornou difícil deixá-lo fora da disputa.
O acordo que não avançou
No início do ano, Eduardo Paes negociou a entrada do Republicanos em sua coligação. A proposta discutida nos bastidores previa que o partido apoiasse sua candidatura ao governo e recebesse, em contrapartida, espaço para Marcelo Crivella disputar uma das duas vagas ao Senado.
O desenho interessava às duas partes. Paes ampliaria sua presença junto ao eleitorado evangélico e conservador. O Republicanos ganharia um palanque competitivo para Crivella sem precisar investir em candidatura própria ao Palácio Guanabara.
A aproximação começou a perder sentido quando o PSD confirmou o deputado federal Pedro Paulo como candidato ao Senado. Paes também assumiu o compromisso de apoiar Benedita da Silva, do PT, fechando politicamente os dois espaços prioritários de sua chapa. Embora outros partidos aliados possam lançar candidatos, o PSD informou que o ex-prefeito concentrará o pedido de votos em Pedro Paulo e Benedita.
Para o Republicanos, permanecer na coligação sem uma contrapartida majoritária deixou de ser atraente. Para Crivella, significaria entrar na disputa sem o apoio preferencial do candidato ao governo.
A escolha de Pedro Paulo não explica sozinha a candidatura de Garotinho, mas eliminou uma das principais razões para o Republicanos desistir de concorrer ao Palácio Guanabara. Paes priorizou um aliado histórico e preservou o controle da própria chapa. Como consequência, abriu espaço para o surgimento de um adversário que poderia ter permanecido do seu lado.
Garotinho ainda está distante de Paes
Os números disponíveis recomendam cautela. Na pesquisa Paraná divulgada em 2 de julho, Paes apareceu com 50,7% das intenções de voto no cenário em que Garotinho foi incluído. Douglas Ruas, do PL, registrou 13,8%, enquanto o ex-governador alcançou 9,8%.
O mesmo levantamento mostrou Garotinho com rejeição de 39,8%, a maior entre os nomes apresentados. Paes registrou 17,9% e Douglas Ruas, 10,5%. A pesquisa ouviu 1.600 eleitores, entre 29 de junho e 1º de julho, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais.
A fotografia atual, portanto, não autoriza tratar Garotinho como ameaça imediata à liderança de Paes. O favoritismo do candidato do PSD permanece amplo.
O peso da candidatura está em outro lugar.
Garotinho conhece a geografia eleitoral do estado, conserva presença no interior e dispõe de uma comunicação direta, construída durante décadas no rádio, na televisão e nas ruas. Seu discurso não depende apenas das estruturas tradicionais de campanha. Ele sabe explorar contradições, escolher adversários e transformar temas administrativos em embates de natureza política.
É nesse terreno que pode causar problemas.
Em uma eleição na qual Paes tenta reunir eleitores de centro, parte da esquerda e segmentos conservadores, Garotinho poderá trabalhar sobre as inconsistências dessa aliança. Deve atacar a associação do PSD com o PT sem romper totalmente com o eleitorado popular que já acompanhou seus governos. Também poderá buscar aproximação com setores bolsonaristas caso a candidatura do PL continue perdendo sustentação.
O esvaziamento da chapa do PL
O movimento do Republicanos ocorre no momento de maior fragilidade da candidatura de Douglas Ruas.
Rogério Lisboa, ex-prefeito de Nova Iguaçu, desistiu de concorrer como vice na chapa do PL. O anúncio foi feito pelo presidente estadual do PP, deputado federal Dr. Luizinho, que atribuiu a decisão a razões pessoais. Nos bastidores, dirigentes do PP passaram a avaliar uma posição de neutralidade na eleição para governador, hipótese que também poderá afastar o União Brasil, seu parceiro na federação partidária.
A saída de Lisboa não representa somente a perda de um vice. Ele havia sido escolhido para garantir presença na Baixada Fluminense e consolidar o apoio da federação União Progressista à candidatura de Douglas Ruas.
Sem o PP, o União Brasil e o Republicanos, o PL corre o risco de disputar o governo com uma estrutura menor do que a inicialmente planejada. A candidatura ainda existe e dispõe da força eleitoral da legenda, mas sua sobrevivência até a convenção passou a depender de uma reconstrução rápida das alianças.
Garotinho pretende ocupar exatamente esse espaço.
A aposta do ex-governador é que parte do eleitorado conservador e bolsonarista procure uma alternativa caso a campanha de Douglas Ruas não consiga recuperar tração. Não existe uma transferência automática desses votos. Há, porém, uma interseção entre segmentos populares, evangélicos e conservadores que já votaram em Garotinho e os grupos que, nos últimos anos, se aproximaram do bolsonarismo.
Crivella ganha espaço no Senado
A segunda consequência da decisão do Republicanos aparece na corrida ao Senado.
Marcelo Crivella será o candidato da legenda. Sua posição se fortalece no momento em que Márcio Canella, do União Brasil, sofre pressão para abandonar a disputa majoritária. Depois de o ex-prefeito de Belford Roxo ser preso em flagrante durante uma fase da Operação Unha e Carne, integrantes da federação União Progressista passaram a considerar insustentável sua permanência na corrida ao Senado. A tendência discutida internamente é que Canella concorra a uma vaga na Assembleia Legislativa. Não há, até agora, confirmação formal dessa mudança.
Canella não foi condenado, e as investigações ainda estão em andamento. Politicamente, entretanto, o episódio retirou estabilidade de sua candidatura e abriu espaço para a redistribuição de votos no campo conservador.
Antes da operação, a pesquisa Paraná mostrava Benedita da Silva com 33% das intenções de voto para o Senado. Crivella aparecia com 25,9%, Canella com 21,9% e Pedro Paulo com 21,5%. Como o eleitor escolherá dois senadores, a eventual saída de Canella poderá beneficiar mais de um candidato, mas Crivella é quem apresenta maior proximidade com parte de sua base religiosa e conservadora.
A composição Garotinho–Crivella também permite ao Republicanos organizar uma campanha estadual própria. O primeiro poderá atuar no interior e nas regiões onde mantém lembrança de seus governos. O segundo concentra maior reconhecimento na capital e entre segmentos ligados às igrejas evangélicas.
O adversário que Paes preferia não enfrentar
Eduardo Paes continua liderando a eleição com ampla vantagem. Tem uma coligação robusta, presença na Região Metropolitana e uma chapa que reúne PSD, MDB e PT. Garotinho, por outro lado, inicia a campanha com rejeição elevada, estrutura partidária menor e necessidade de recuperar eleitores que se afastaram de seu grupo político.
Ainda assim, a entrada do ex-governador impõe um tipo de disputa que Paes não enfrentaria com André Português ou com uma candidatura simbólica do Republicanos.
Garotinho não precisa liderar as pesquisas para influenciar o resultado. Basta retirar votos de determinados campos, crescer em regiões específicas e impedir que um dos adversários concentre sozinho o eleitorado contrário ao PSD.
Seu primeiro objetivo será ultrapassar Douglas Ruas e se apresentar como o principal nome de oposição a Paes. Caso consiga, poderá transformar uma eleição hoje encaminhada para uma vitória no primeiro turno em uma disputa mais longa e imprevisível.
A escolha do Republicanos não derruba o favoritismo de Eduardo Paes. Derruba a ideia de que o caminho até o Palácio Guanabara permaneceria livre de obstáculos relevantes.
Garotinho voltou ao tabuleiro. E, no Rio de Janeiro, poucas peças provocam tanto movimento ao redor quando ele decide jogar.
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