Nos tempos da ditadura o que se dizia é que a esquerda só se une na cadeia. No palanque e nas ruas se divide, quando não sai na porrada. Os tempos recentes da Operação Lava-Jato demonstram que a união da esquerda na cadeia é mito, porque no xilindró tem companheiro que arrega e delata.
Se for para salvar a própria pele, alguns são capazes de confessar que urubu é pássaro de gaiola.
Vale tudo no palanque
Nas ruas e palanques do Rio de Janeiro, a esquerda anda dividida e nervosa, com apoiadores de André Ceciliano (PT) e Alessandro Molon (PSB) perto de protagonizar uma guerra com tiro, porrada, bomba e navalha. Ceciliano e Molon disputam uma vaga no Senado pelo Estado do Rio e também se acotovelam em palanques e redes sociais. E olha que a campanha eleitoral ainda não esquentou.
Romário vibra
A briga Ceciliano x Molon, por enquanto, é apenas interna pela unção de candidato da aliança entre PT e PSB, ancorados em Lula – candidato à presidência -, e Marcelo Freixo (PSB), que disputa a sucessão estadual. Se a divisão persistir, favorece o senador Romário (PL), candidato à reeleição na órbita bolsonarista. A conta é simples: o voto da esquerda para o Senado se pulveriza entre dois nomes, enquanto que Romário deve correr sozinho na raia do voto conservador.
Alessandro Molon é o segundo colocado nas pesquisas de intenção de votos. Aparece logo atrás de Romário. Ceciliano é o quarto colocado, atrás de Daniel Silveira (PTB), mas acredita na capilaridade em todo o Estado, com apoio de prefeitos, vereadores, além do potencial de transferência de votos de Lula ( já apontado nas pesquisas internas) para ganhar fôlego.
Cartada de Lula
Molon tem resistências entre petistas e correligionários do PSB, legenda que ele preside no Estado há 5 anos. No PT em função de posição dúbia. O parlamentar, que já foi filiado à legenda, chegou a fazer elogios à Operação Lava-Jato e ao ex-juiz Sérgio Moro, carrasco associado a promotores para condenar réus petistas.
Em sua mais recente passagem pelo Rio, Lula jogou essas cartas na mesa: “A gente conhece os seres humanos nas horas difíceis. Quanto a gente está bem, todo mundo é amigo da gente. Quando a gente cai em desgraça, quando a agente é vítima de extorsão e sacanagem. Quando a gente tem um Moro mentindo…”. Tem coisas que o político até perdoa, mas não esquece.
Socialismo de cartório
Já no PSB o pré-candidato ao Senado é apontado como individualista. Em cinco anos, segundo militantes da legenda, foi incapaz de organizar o partido nos 92 municípios fluminense. Em várias cidades, o PSB é um partido meramente cartorial, sob controle de apoiadores de Molon, situação que enfraquece a penetração de Freixo no interior.
O que se avalia é que a candidatura de Ceciliano supre essa carência, em função do apoio que já tem de prefeitos e vereadores em vários municípios do interior, e a própria organização do PT. Ou seja, ainda que a situação nas pesquisas aponte favoritismo de Molon, a candidatura de Ceciliano somaria muito mais para a chapa majoritária do que uma candidatura de Molon. Contudo, as chances de um ou outro recuar são mínimas.
Suruba eleitoral
Fora a disputa Ceciliano x Molon, tem um novo capítulo na pré-campanha: o voto casado de Lula com o governador Cláudio Castro na Baixada Fluminense. É o Lula-Castro. Em tese, Cláudio Castro é aliado do presidente Jair Bolsonaro. O Rio de Janeiro, definitivamente, não é para amadores.
Navalha afiada
*É possível que o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) ainda esteja alheio à briga indigesta que estaria ocorrendo entre membros do Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) e outros setores do MPRJ.
*Tudo começa com o inquérito que investiga o bicheiro Rogério Andrade. Algumas páginas teriam desaparecido e não foi obra de Sobrenatural de Almeida, aquele famoso personagem das crônicas de Nelson Rodrigues.
*Rosa Sapucaia, a entidade que tudo vê, diz que tem estilhaços para todo lado e alerta que um montão de gente poderá ficar encrencada.
*A coluna Diário do Poder, por Madame Satã, é publicada na versão impressa do jornal Diário da Guanabara.











