A cardiopatia congênita, condição que afeta a estrutura ou o funcionamento do coração desde a formação do bebê ainda na gestação, atinge cerca de 1 em cada 100 nascidos vivos no Brasil. O problema exige atenção de pais, médicos e equipes de saúde, já que o diagnóstico precoce pode ser decisivo para aumentar as chances de tratamento e garantir mais qualidade de vida às crianças.
A dona de casa Cristiane Brito conhece de perto essa realidade. O filho dela, João, nasceu aparentemente bem, após uma cesárea com 38 semanas e dois dias de gestação. No início, tudo parecia dentro da normalidade. O bebê foi levado para o quarto, mamava e não precisou passar por nenhum procedimento imediato.
Mas, poucas horas depois, Cristiane percebeu que havia algo errado. Segundo ela, João apresentava dificuldade para respirar. A mãe relatou ter chamado a pediatra várias vezes, mas ouviu que os sintomas poderiam estar relacionados a restos do parto ainda nas vias respiratórias.
A situação se agravou nos dias seguintes. Cristiane conta que o filho ficou febril e, mesmo após novos questionamentos à equipe médica, a suspeita inicial não foi tratada como emergência. Quando João foi levado para a UTI, já apresentava pneumonia. Mais tarde, ele precisou ser transferido para o Instituto Nacional de Cardiologia, onde passou por uma cirurgia de correção.
O caso de João representa o drama vivido por milhares de famílias brasileiras. A cardiopatia congênita pode se manifestar de diferentes formas. Em alguns bebês, os sinais aparecem logo nos primeiros dias de vida. Em outros, podem demorar mais tempo para serem percebidos, o que reforça a importância da triagem neonatal, do pré-natal bem acompanhado e da observação cuidadosa após o nascimento.
A cardiologista fetal e pediátrica Dra. Érca Porto explica que cerca de uma em cada 100 crianças nasce com algum problema no coração. Desse total, aproximadamente 30% podem apresentar formas graves da doença, com necessidade de intervenção ainda no período neonatal, seja por cirurgia cardíaca ou por cateterismo.
De acordo com a especialista, quando o diagnóstico é feito ainda durante a gestação, a equipe médica consegue organizar o parto em uma unidade preparada para receber o bebê e, se necessário, realizar o procedimento logo após o nascimento. Essa programação pode ser essencial nos casos em que a criança precisa operar rapidamente para sobreviver.
Entre os principais sinais de alerta estão cansaço durante as mamadas, dificuldade para ganhar peso, respiração ofegante e cianose, que é a coloração arroxeada nos lábios, na boca ou principalmente na língua, especialmente quando o bebê chora ou fica irritado. Esses sintomas devem ser avaliados por um pediatra ou cardiologista pediátrico.
Apesar dos desafios, os avanços da medicina têm permitido que muitas crianças com cardiopatia congênita tenham vida ativa e desenvolvimento próximo ao normal. O tratamento varia conforme o tipo e a gravidade da alteração cardíaca. Há casos mais leves, que exigem apenas acompanhamento, e casos complexos, que precisam de cirurgia, cateterismo e cuidados contínuos ao longo da vida.
Segundo a Dra. Érca Porto, quando a criança nasce em um centro preparado e recebe o tratamento adequado, a chance de sobrevida aumenta significativamente. Muitas crianças operadas conseguem crescer, estudar, brincar, praticar atividades com orientação médica e construir uma rotina saudável. Ainda assim, o acompanhamento cardiológico deve ser mantido, já que o coração continuará exigindo atenção especial.
Cristiane relata que os primeiros anos foram difíceis, mas hoje João leva uma vida praticamente normal. Ele ainda faz uso de medicação por causa da hipertensão, mas conseguiu superar a fase mais crítica e se desenvolver bem.
O Dia Nacional de Conscientização da Cardiopatia Congênita, lembrado em 12 de junho, reforça a importância da informação, do diagnóstico precoce e do acesso ao tratamento especializado. Para especialistas, a atenção aos sinais e o acompanhamento desde o pré-natal são fundamentais para reduzir riscos e ampliar as chances de um futuro saudável para as crianças.
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