A crise climática tem uma relação direta com a desigualdade econômica. Enquanto bilhões de pessoas enfrentam os efeitos de enchentes, secas e ondas de calor, uma pequena parcela da população mundial concentra uma quantidade desproporcional das emissões de carbono. Um novo relatório aponta que os 0,1% mais ricos do planeta poluem mais do que os 3,5 bilhões de indivíduos que formam a metade mais pobre da humanidade.
O levantamento foi divulgado pela Confederação Internacional de Organizações Não Governamentais, ligada à Oxfam, e estima que esse grupo de aproximadamente 8 milhões de pessoas tenha uma contribuição para as emissões superior à de metade da população mundial.
O documento também alerta para as consequências humanas da poluição. Segundo as estimativas, as emissões produzidas durante um ano pelo 1% mais rico podem estar associadas a cerca de 1,9 milhão de mortes provocadas pelo calor extremo. Quase 80% das vítimas estariam em países de menor renda, embora essas nações respondam por apenas 8% das emissões globais.
O estudo foi apresentado antes da COP31, conferência climática da Organização das Nações Unidas (ONU), prevista para acontecer na Turquia, entre 9 e 20 de novembro.
Empresas lucram com poluição e reconstrução após desastres
Além de analisar a concentração das emissões entre os mais ricos, o relatório da Oxfam aponta uma relação entre atividades poluidoras e oportunidades de lucro geradas pela recuperação de áreas atingidas por eventos climáticos extremos.
Para investigar esse cenário, a organização desenvolveu o índice chamado “Destruir e Reconstruir”. A ferramenta identificou 217 empresas que, segundo o levantamento, obtêm ganhos econômicos tanto com atividades associadas à poluição quanto com serviços de reconstrução de cidades afetadas por desastres ambientais.
O relatório estima que as emissões relacionadas aos grupos mais ricos poderão provocar US$ 53 trilhões em prejuízos econômicos até 2050. O documento também aponta o risco de aproximadamente 1 bilhão de pessoas serem obrigadas a deixar suas casas em razão dos impactos das mudanças climáticas.
A desigualdade aparece também na capacidade de proteção. Enquanto famílias de baixa renda enfrentam perdas de moradias, plantações e fontes de sustento, pessoas com maior patrimônio dispõem de mais recursos para se proteger, mudar de região ou recuperar seus bens após uma tragédia.
O diretor da Oxfam, Amitabh Behar, criticou esse desequilíbrio e destacou que os grupos com maior responsabilidade pelas emissões também podem obter benefícios econômicos com serviços de emergência e reconstrução após desastres.
Oxfam defende impostos sobre grandes fortunas e poluidores
Entre as medidas propostas pela organização para enfrentar a crise climática está o aumento da tributação sobre atividades e grupos que concentram grandes volumes de emissões.
A Oxfam defende impostos sobre grandes fortunas, empresas do setor de combustíveis fósseis e bens de luxo com elevada pegada de carbono, como jatos particulares.
Na avaliação da entidade, essas medidas poderiam contribuir para reduzir a desigualdade na distribuição dos custos ambientais e ampliar os recursos destinados ao enfrentamento das mudanças climáticas.
O relatório também reforça a necessidade de discutir quem deve assumir a maior parcela dos custos da crise climática. A organização argumenta que os impactos ambientais atingem de maneira desigual a população mundial, embora a contribuição para as emissões esteja concentrada entre os grupos de maior renda.
COP31 deve discutir responsabilidade climática
A distribuição das emissões e os impactos sobre as populações mais vulneráveis devem integrar o debate internacional sobre o clima. A COP31, prevista para novembro na Turquia, reunirá representantes de governos e organizações para discutir medidas de redução das emissões e enfrentamento do aquecimento global.
O levantamento da Oxfam busca colocar em evidência a relação entre riqueza, responsabilidade ambiental e capacidade de enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. A entidade defende que os maiores emissores contribuam proporcionalmente mais para financiar ações de prevenção, adaptação e recuperação de áreas afetadas.
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