O número de trabalhadores por aplicativo no Brasil cresceu 25% nos últimos dois anos, de acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar do aumento expressivo, o levantamento mostra que a maior parte desses profissionais vive uma realidade marcada por baixos rendimentos e falta de proteção social.
O estudo revela que, atualmente, mais de 1,7 milhão de brasileiros atuam em atividades mediadas por plataformas digitais, como transporte de passageiros, entregas e serviços autônomos. No entanto, cerca de 60% afirmam não ter acesso a benefícios básicos, como aposentadoria, seguro-desemprego ou licença médica.
Entre os principais fatores que impulsionaram o crescimento da categoria estão o desemprego estrutural e a busca por renda extra em meio ao aumento do custo de vida. “O trabalho por aplicativo se tornou uma alternativa diante da falta de vagas formais, mas, ao mesmo tempo, é um reflexo da fragilidade do mercado de trabalho brasileiro”, avalia a economista Renata Vieira, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).
Ainda segundo o IBGE, o rendimento médio desses trabalhadores é cerca de 20% inferior ao de ocupações formais equivalentes. Motoristas e entregadores, por exemplo, relataram trabalhar mais de 10 horas por dia para garantir uma renda próxima a um salário mínimo. A falta de vínculo empregatício e de regulamentação específica agrava a vulnerabilidade do grupo.
Para especialistas, a expansão sem regulação adequada pode ampliar as desigualdades e comprometer o futuro da previdência social. “O país precisa avançar em políticas que reconheçam esses trabalhadores e garantam o mínimo de proteção. A ausência de direitos trabalhistas é um problema que tende a se agravar se nada for feito”, afirma o sociólogo Ricardo Lemos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O governo federal tem discutido propostas para regulamentar as atividades por aplicativo, incluindo a criação de contribuições simplificadas ao INSS e a definição de padrões mínimos de segurança e remuneração. No entanto, as negociações seguem em ritmo lento e enfrentam resistência das empresas de tecnologia.
Enquanto isso, milhões de brasileiros continuam trabalhando em condições precárias, sem garantias e expostos à instabilidade econômica. O desafio, apontam especialistas, é equilibrar a flexibilidade oferecida pelos aplicativos com a necessidade de assegurar direitos básicos e dignidade laboral.
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