A polarização política ganhou novos desdobramentos no comércio brasileiro após a circulação de listas que incentivam consumidores a deixar de frequentar estabelecimentos supostamente ligados à esquerda. Divulgadas nas redes sociais depois do segundo turno das eleições, as publicações expuseram empresários de diferentes regiões do país e provocaram denúncias de perseguição ideológica.
Entre os estabelecimentos atingidos está o Chou Noodle Bar, restaurante localizado em Itu, no interior de São Paulo. O proprietário e cozinheiro Chou contou que começou a receber mensagens e ligações logo pela manhã, depois que amigos o avisaram de que o negócio havia sido incluído em uma lista de boicote.
Embora não esconda suas opiniões políticas, o empresário afirma que nunca diferenciou clientes por causa de suas convicções. Após a divulgação do material, também recebeu manifestações de apoio de pessoas com diferentes posicionamentos.
“A gente mora num país democrático, no qual a gente tem que se respeitar por opiniões. Simples assim”, declarou. Chou criticou ainda a iniciativa de utilizar listas para estimular a exclusão de comerciantes por suas ideias políticas.
Empresários relatam prejuízos e impactos emocionais
Em Vitória, no Espírito Santo, a Mercearia Belmiro também foi mencionada em uma publicação desse tipo. O proprietário, Helder Belmiro, afirmou que já havia passado por uma situação semelhante em 2022 e temia enfrentar novamente as consequências da exposição.
O comerciante não conseguiu mensurar o prejuízo financeiro, mas percebeu uma redução nas vendas nos dias seguintes à divulgação da lista. Além das preocupações com o negócio, ele relatou consequências emocionais e disse estar fazendo uso de medicamentos para tratar a ansiedade.
Diante da situação, Helder e outros empresários atingidos buscaram orientação jurídica e registraram o caso junto à Polícia Civil. O objetivo é identificar os responsáveis pela criação e disseminação das publicações.
Livraria recebe manifestações de solidariedade
Em Santos, no litoral paulista, a livraria Realejo também foi incluída em uma lista de boicote. O proprietário, Zé Luiz Tahan, soube da situação por meio de um vídeo publicado nas redes sociais.
O livreiro decidiu se posicionar publicamente e recebeu diversas manifestações de apoio. Uma de suas publicações chegou a quase 100 mil curtidas, ampliando a repercussão do episódio.
Para Tahan, a polarização nas plataformas digitais tem dificultado o diálogo e a convivência entre pessoas com opiniões diferentes. Ele defende que os estabelecimentos possam manter suas características e expressar posicionamentos sem que isso resulte em hostilidade ou segregação.
Divulgação de listas pode resultar em responsabilização
A exposição de comerciantes em publicações que incentivam boicotes por motivos políticos também pode gerar consequências na esfera judicial, dependendo da forma como o conteúdo é produzido e divulgado.
Segundo o advogado e pós-doutor Antonio Gonçalves, situações específicas podem envolver crimes contra a honra, como difamação, além de eventuais ameaças. A caracterização de cada conduta depende da análise das circunstâncias e das provas disponíveis.
O especialista orienta que os empresários afetados formalizem denúncias e procurem as autoridades competentes. Entre as medidas possíveis estão o registro de boletim de ocorrência e a apresentação de informações que ajudem a identificar os responsáveis pelas publicações.
Em 2025, dois homens foram condenados em São Paulo por criarem listas destinadas a incentivar o boicote a comerciantes de Cafelândia por razões políticas. O episódio mostra que iniciativas desse tipo podem ultrapassar o campo da manifestação de opinião e, conforme as circunstâncias, resultar em consequências judiciais.
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