*Por Rita Jover
As primeiras semanas de 2026 no Brasil vêm sendo marcadas por notícias de feminicídio em ritmo semanal, quase diário. Diante do horror continuado, a morosa justiça e mesmo o STF parece entender a urgência que respostas a essa violência continuada deveria implicar por parte do Estado, por parte da sociedade.
Há muitas formas de se matar uma mulher, recentemente, correu uma notícia, aparentemente desmentida a posteriori segundo a qual em 2025 a pergunta “Como matar uma mulher?” teria sido feita aos motores de busca mais de 500 milhões de vezes. A julgar pelas notícias, se non è vero, è ben trovato.
É verdade há muitas formas de se matar uma mulher e, talvez ainda mais de se matar uma mãe. Em 12/02/2026, um pai “vinga-se de uma traição” de sua mulher, matando os dois filhos (“Papai te ama, viu?”) e cometendo suicídio em seguida. Sabe-se hoje que quem traiu foi ele e que o casamento já havia acabado, mas não importa diante do impacto da violência simbólica que o evento produziu.
Esse homem, avesso de Medeia, que, na tragédia de Eurípedes, mata os filhos para impingir ao marido que a abandonara a maior dor possível, foi objeto de consternação e solidariedade nas redes e isso a tal ponto que o tribunal do X julgou a mãe culpada pelo assassinato dos filhos.
Na vida fora das redes sociais, a mãe foi hostilizada no sepultamento dos filhos, tendo sido retirada sob escolta. A maternidade está sempre sob suspeita.
No final de 2025, duas minisséries lançadas com curto intervalo: All Her Fault (Peacock, 2025) e Pequenos Desastres (Paramount+, 2025) mergulharam no tema da maternidade para impulsionar tramas policiais intensas. Não é novidade: de Big Little Lies a incontáveis thrillers, o arquétipo da mãe sob suspeita é recorrente. Mas essas duas se destacam por encarnarem maternidades emblemáticas da década, tensionadas por expectativas sociais e a implacável culpa, seja lá a mãe que puderam se tornar.
Em All Her Fault, Sarah Snook encarna Marissa Derrill, a mãe multi-tarefa, empresária do mundo das finanças, que busca o equilíbrio na permanente corda-bamba entre carreira e família perfeitas: marido atencioso, casa luxuosa, filho na escola ideal de um bairro chique.
O que poderia dar errado? Tudo. Quando Milo desaparece após um playdate mal gerenciado, expondo a ansiedade crônica de uma mulher bem-sucedida que “nunca está onde deveria”: reuniões profissionais, festas escolares ou com o filho no colo.
A narrativa, constrói um thriller sufocante sobre julgamentos de classe e gênero, onde a culpa materna é amplificada por falhas sistêmicas como a divisão desigual de cuidados que parecem fazer com que os pais disponham tacitamente de salvo-conduto para todas as ocasiões: da reunião de pais à responsabilidade por um sequestro.
Já em Pequenos Desastres, Diane Kruger interpreta Jess, mãe em tempo integral na Inglaterra: tem três filhos e o controle absoluto do ambiente (bolachas triadas e guardadas por cor e tamanho, verduras e legumes orgânicos, antivacina convicta (não há nem dipirona na casa, sua falha trágica) e guardiã do lar impecável ao lado de um marido forte, viril e provedor.
Jess nos evoca as tradwives das redes-sociais: maternidade integral e cuidado doméstico como performance O idílio (aos olhos externos) rui quando a bebê Betsey chega ao pronto-socorro com uma fratura craniana inexplicável, tornando Jess suspeita de maus-tratos, inclusive (ou mesmo sobretudo?), por seu mais íntimo círculo social. Silenciosa, solitária e exausta, Jess atravessa os seis episódios da temporada como uma via crucis.
O diálogo temático entre as duas séries oferece uma miríade de discussões sobre a maternidade, inclusive por oferecer um inventário desse controverso papel na contemporaneidade.
Nesse sentido, as protagonistas dialogam como opostos complementares: Marissa pecaria pela ausência; Jess, pelo excesso. O divisor comum é justamente o inevitável pecado (a culpa já era de Eva, lembram?).
Ambas colapsam ante a ameaça mortal aos filhos, revelando o terror da culpa inerente. O que ambas as protagonistas têm em comum, além de filhos, é um permanente estado de alerta que as faz viver em modo de emergência: a infância é frágil, o desastre, sempre por um triz.
Sobre a autora: Rita Jover-Faleiros é professora associada do curso de Letras Francês e Português da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e orientadora credenciada na linha ”Literatura e autonomia: questões de estética e ética” do Programa de Pós-Graduação em Letras nessa instituição. É bacharel, mestre e doutora em Letras pela FFLCH da Universidade de São Paulo (USP).
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