A relação entre Ucrânia e Estados Unidos atravessa um dos momentos mais delicados desde o início da invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que se sente “traído” por Donald Trump diante de uma sequência de decisões de Washington que, na avaliação de Kiev, reduzem a pressão sobre Moscou.
A declaração foi feita em entrevista ao programa Piers Morgan Uncensored, divulgada na quarta-feira (14). Ao ser questionado diretamente sobre a possibilidade de se sentir traído pelo presidente americano, Zelensky respondeu afirmativamente, mas ressaltou que a questão vai além de seus sentimentos pessoais. Segundo ele, o mais preocupante é a possibilidade de a Ucrânia perder um parceiro estratégico importante.
Zelensky também disse considerar “doloroso” quando Trump escolhe uma posição que não corresponde à defendida pela Ucrânia. O presidente ucraniano afirmou que aceitaria os Estados Unidos em uma posição de mediação entre Kiev e Moscou, desde que essa postura fosse mantida de maneira equilibrada.
A insatisfação aumentou depois que Trump anunciou um acordo com o presidente russo, Vladimir Putin, para permitir a entrada de diesel produzido pela Rússia no mercado americano e ampliar as exportações russas do combustível. O governo americano afirma que a medida busca aumentar a oferta e ajudar a reduzir os preços de energia nos Estados Unidos.
Para o governo ucraniano, porém, o acordo produz o efeito contrário aos esforços para pressionar economicamente Moscou. Zelensky argumenta que as receitas obtidas com a venda de energia ajudam a financiar a máquina de guerra russa e defendeu que as sanções sejam mantidas enquanto a invasão continuar.
O atrito se intensificou quando Trump passou a cobrar que a Ucrânia interrompesse os ataques contra refinarias russas, responsabilizando essas ofensivas por parte da pressão sobre os preços dos combustíveis. No dia 10, o presidente americano também afirmou que a Ucrânia deveria ter um novo presidente capaz de chegar a um acordo com Moscou.
Kiev, por sua vez, sustenta que as refinarias e instalações de energia russas são importantes para a capacidade de Moscou de financiar e sustentar suas operações militares. Após uma breve tentativa de interromper ataques à infraestrutura energética, forças ucranianas voltaram a atingir uma refinaria russa, alegando que Moscou não havia respeitado a trégua.
Outro ponto de tensão envolve o sistema de comunicação por satélite utilizado pelas forças ucranianas. Autoridades de Kiev relataram restrições no Starshield, serviço militar desenvolvido pela SpaceX, que afetaram determinadas operações com drones. A Ucrânia passou a negociar com a empresa e com o governo americano uma solução para as limitações.
O cenário ficou ainda mais delicado na sexta-feira (16). Trump assinou uma ordem executiva que utiliza uma autorização prevista na chamada Lindsey O. Graham Sanctioning Russia and Iran Act para suspender a aplicação de diversas sanções, restrições e tarifas previstas pela nova legislação.
No documento oficial, a Casa Branca afirma que a suspensão atende aos interesses nacionais dos Estados Unidos. A ordem estabelece que as dispensas poderão permanecer em vigor até que o presidente ou integrantes de seu governo decidam que novas medidas são necessárias.
Neste sábado (17), Zelensky criticou a decisão e voltou a defender maior pressão econômica sobre Moscou. Para o presidente ucraniano, reduzir as sanções neste momento beneficia a Rússia e pode estimular a continuidade das operações militares.
A decisão de Trump também provocou reação dentro dos Estados Unidos. Parlamentares republicanos e democratas haviam apoiado medidas mais duras contra a Rússia, e integrantes do Congresso criticaram a suspensão de parte das sanções previstas na legislação.
Apesar das divergências, o governo ucraniano não rompeu o diálogo com Washington. Os Estados Unidos continuam sendo fundamentais para a defesa da Ucrânia, especialmente em áreas como inteligência, sistemas militares e tecnologia. Ao mesmo tempo, Zelensky tem defendido uma participação maior dos países europeus tanto no apoio militar quanto em eventuais negociações de paz.
A crise entre os dois presidentes ocorre enquanto não há acordo para encerrar a guerra. Rússia e Ucrânia continuam realizando ataques, inclusive contra infraestruturas de energia, e as tentativas diplomáticas ainda não produziram uma solução aceita pelas duas partes.
Ao declarar que se sente traído, Zelensky tornou pública uma preocupação que vem crescendo em Kiev: a possibilidade de que a estratégia americana esteja mudando de uma política de pressão sobre a Rússia para uma tentativa de aproximação e negociação direta com Moscou. Trump, por outro lado, afirma buscar uma saída para o conflito e defende suas decisões também com base nos interesses econômicos e energéticos dos Estados Unidos.
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