O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizou nesta sexta-feira (4) o conflito militar de seis meses com o Irã e apoiou a posição do vice-presidente JD Vance de que os combates não deveriam ser chamados de “guerra”. Questionado por jornalistas na Casa Branca, Trump afirmou que prefere falar em um conflito militar e classificou a situação como algo de pouca dimensão para os Estados Unidos.
A declaração veio um dia depois de Vance dizer, durante entrevista coletiva, que não considerava a situação uma guerra porque, naquele momento, não havia “tiroteio ativo”. A fala chamou atenção porque ocorreu no mesmo dia em que o Irã lançou ataques contra o Kuwait, aliado dos Estados Unidos no Golfo, em resposta aos bombardeios americanos realizados no início da semana.
O confronto começou em 28 de fevereiro e, desde então, Estados Unidos e Israel têm realizado ataques aéreos contra o território iraniano. Não houve envio de tropas americanas para uma ofensiva terrestre dentro do Irã. Mesmo assim, seis meses de operações já custaram mais de US$ 37,5 bilhões aos Estados Unidos e deixaram 18 militares americanos mortos.
Ao ser questionado sobre como poderia chamar o conflito de algo pequeno diante das mortes, Trump comparou o número de baixas americanas com guerras anteriores e voltou a defender que a campanha enfraqueceu o programa nuclear iraniano. A Associated Press ressaltou, no entanto, que uma das cifras mencionadas por Trump na comparação com o Vietnã estava incorreta: registros oficiais apontam 58.220 militares americanos mortos naquela guerra, e não 100 mil.
A escolha das palavras também ocorre em um momento politicamente delicado para a Casa Branca. As eleições legislativas de meio de mandato serão realizadas em 3 de novembro, e pesquisas mostram desgaste da estratégia americana no Irã. Levantamento AP-NORC divulgado em agosto apontou que cerca de dois terços dos americanos consideravam que o conflito não valia a pena, enquanto a aprovação da condução de Trump havia caído para 28%.
Parte dessa insatisfação está relacionada às consequências econômicas. Na quinta-feira, o petróleo Brent era negociado acima de US$ 95 por barril, contra aproximadamente US$ 72 na véspera do início do conflito. A passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio mundial de petróleo, também continua muito abaixo do nível anterior aos combates.
Dados da Lloyd’s List Intelligence citados pela AP mostram 102 travessias pelo estreito na semana passada e 126 na anterior. Antes do conflito, eram registradas 130 ou mais por dia. Já o TankerTrackers.com calcula que, nas últimas quatro semanas, uma média de 5 milhões de barris de petróleo por dia saiu pelo estreito, frente aos cerca de 20 milhões de barris que circulavam diariamente pela região antes da guerra.
A Casa Branca sustenta que a Marinha dos Estados Unidos vem ampliando a segurança das rotas e permitindo a recuperação dos embarques. Vance disse que aproximadamente 15 milhões de barris foram escoltados na quarta-feira. Empresas independentes de monitoramento marítimo, contudo, continuam apontando um tráfego significativamente inferior ao período anterior ao conflito.
Apesar da tentativa de reduzir a percepção de uma guerra prolongada, Trump também sinalizou nesta sexta-feira a possibilidade de uma nova escalada. O presidente afirmou que os Estados Unidos podem atacar “muito em breve” a chamada Pickaxe Mountain, instalação fortificada próxima ao complexo nuclear de Natanz, onde existem túneis subterrâneos profundos.
A combinação de ataques intermitentes, pressão econômica e ameaças de novas ofensivas tem marcado a estratégia americana nas últimas semanas. Ao mesmo tempo em que Trump e Vance rejeitam a ideia de uma guerra convencional, Washington mantém operações militares contra o Irã, enquanto Teerã continua respondendo contra interesses americanos e aliados dos EUA na região.
Assim, a discussão em torno da palavra “guerra” é também uma disputa de narrativa política. Independentemente do termo utilizado pela Casa Branca, permanecem os ataques militares, as vítimas, o impacto sobre o mercado de energia e o risco de uma nova escalada no Oriente Médio.
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