Três dias depois de Donald Trump anunciar que Rússia e Ucrânia haviam concordado em parar de atacar a infraestrutura energética uma da outra, a trégua ainda não existe na prática. Nem Moscou nem Kiev confirmaram o acordo anunciado pelo presidente americano, e os dois países continuaram atingindo alvos ligados ao setor de energia nesta semana.
Nesta quinta-feira (17), novos ataques deixaram clara a distância entre o anúncio e a realidade no terreno. Uma ofensiva russa com mísseis e drones atingiu Kiev e outras regiões da Ucrânia e deixou pelo menos 19 feridos, segundo autoridades ucranianas. No mesmo período, forças de Kiev atacaram uma refinaria de petróleo em Yaroslavl, na Rússia, além de um aeródromo militar na região de Rostov.
Nos bastidores das negociações, a resistência russa seria maior do que sugere a declaração de Trump. O Financial Times, citando pessoas familiarizadas com a posição do Kremlin, informou que Vladimir Putin não pretende concluir uma trégua energética antes do inverno. Segundo essas fontes, Moscou avalia que continuar pressionando o sistema energético ucraniano durante os meses mais frios pode aumentar o custo da guerra para Kiev e favorecer concessões em futuras negociações. A informação não foi assumida publicamente pelo presidente russo.
A manifestação pública do Kremlin foi mais cautelosa. O porta-voz Dmitry Peskov classificou a possibilidade de interromper os ataques contra instalações energéticas como uma “ideia muito boa”, mas disse que uma discussão mais ampla também deveria envolver segurança da navegação comercial e a retirada das sanções que Moscou considera ilegais. Até então, o governo russo não havia confirmado a existência do acordo anunciado por Trump.
Kiev também não tratou a trégua como acertada. O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que a Ucrânia está disposta a suspender os ataques contra o setor energético russo caso Moscou faça o mesmo, mas exige garantias de que o compromisso será efetivo e duradouro. Nesta quinta-feira, o chanceler ucraniano Andrii Sybiha voltou a afirmar que o país aceita discutir uma pausa que inclua infraestrutura energética e o Mar Negro, mas disse ainda não ter visto sinais de que a Rússia esteja preparada para aderir.
O que Trump anunciou
Na segunda-feira (14), Trump escreveu que “a Ucrânia concordou em não atingir os alvos energéticos da Rússia” e que Moscou havia aceitado fazer o mesmo. O presidente americano relacionou a iniciativa à pressão sobre os preços internacionais do diesel. A declaração, porém, surpreendeu autoridades ucranianas e não foi acompanhada de um anúncio conjunto ou de detalhes sobre quando a suposta trégua começaria, quanto tempo duraria ou como eventuais violações seriam verificadas.
O setor energético tornou-se uma frente importante da guerra. A Ucrânia ampliou os ataques de longa distância contra refinarias e instalações portuárias russas. Dados divulgados nesta quinta-feira mostram que, apesar de as exportações marítimas russas de derivados terem crescido de julho para agosto, ficaram 50% abaixo do volume registrado no mesmo mês de 2025. A Reuters atribui parte dessa queda aos ataques ucranianos contra refinarias e portos e à proibição russa de exportação de diesel.
A Rússia, por sua vez, continua atingindo a infraestrutura ucraniana. Moscou afirmou nesta quinta ter atacado, entre outros alvos, instalações de energia e transporte. O governo ucraniano acusa as forças russas de tentar comprometer o abastecimento do país à medida que o inverno se aproxima.
Por enquanto, portanto, a chamada trégua energética permanece como uma proposta em negociação, e não como um cessar-fogo em vigor. Autoridades ucranianas esperam que o tema volte à mesa em uma reunião entre Zelensky e Trump prevista para ocorrer durante a Assembleia Geral da ONU neste mês.
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