As relações entre Brasil e Estados Unidos entraram no radar da inteligência brasileira por causa de possíveis impactos sobre as eleições de outubro.
Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) aponta que o aumento das pressões comerciais e diplomáticas de Washington pode representar riscos ao ambiente político e eleitoral do país.
O documento foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. As informações foram divulgadas no sábado (19 de setembro) pela Folha de S.Paulo e confirmadas pela TV Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
Na avaliação da Abin, a política externa do segundo governo de Donald Trump está relacionada a uma estratégia de fortalecimento da influência dos Estados Unidos na América Latina. O objetivo seria ampliar a presença norte-americana em setores econômicos considerados estratégicos e conter o avanço de outras potências, especialmente a China.
Recursos naturais, infraestrutura e ativos econômicos estão entre os interesses apontados na análise. Para a agência brasileira, esse cenário ajuda a compreender as medidas adotadas recentemente por Washington em relação ao Brasil.
Tarifas e sanções ampliaram tensões entre Brasil e Estados Unidos
As divergências entre os dois governos ganharam força em 2025, quando Trump elevou tarifas sobre produtos brasileiros e associou parte das medidas a questões políticas e judiciais envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na ocasião, autoridades norte-americanas criticaram decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e classificaram os processos contra Bolsonaro como perseguição política. O governo brasileiro rejeitou essa interpretação e reafirmou a independência do Judiciário.
O desgaste diplomático também envolveu sanções financeiras, restrições de vistos e medidas direcionadas a autoridades brasileiras.
Entre os episódios de maior repercussão esteve a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes e à esposa dele, Viviane Barci Moraes. Os dois foram retirados da lista de sancionados em dezembro de 2025.
Mesmo após decisões da Suprema Corte dos Estados Unidos que limitaram parte da política tarifária de Trump, novas sobretaxas atingiram produtos brasileiros em 2026.
As medidas comerciais e financeiras passaram a integrar o cenário de preocupação acompanhado pela inteligência brasileira, principalmente diante da proximidade das eleições.
Combate ao crime organizado também provoca divergências
Outro ponto de tensão entre Brasília e Washington envolve o tratamento dado às organizações criminosas brasileiras.
A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos gerou preocupação no governo brasileiro.
Entre os possíveis desdobramentos estão restrições econômicas, bloqueios financeiros e sanções que poderiam atingir empresas e instituições com relações comerciais internacionais.
O governo brasileiro defende a cooperação com outros países no enfrentamento ao crime organizado, mas sustenta que essas iniciativas devem respeitar a legislação e a soberania nacional.
Lula mantém diálogo com Trump apesar dos conflitos
Mesmo diante dos impasses comerciais e diplomáticos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem procurado preservar os canais de negociação com o governo norte-americano.
Os dois presidentes já discutiram temas como tarifas, comércio bilateral e cooperação no combate ao crime organizado em encontros e conversas telefônicas.
Durante reunião realizada em Washington, em maio, Lula defendeu a revisão das barreiras impostas aos produtos brasileiros e apresentou argumentos sobre a importância das relações econômicas entre os dois países.
A posição brasileira tem sido a de manter as negociações comerciais sem abrir mão da autonomia das instituições nacionais.
Em setembro, uma nova controvérsia surgiu após a divulgação de informações sobre uma proposta norte-americana que incluía exigências relacionadas à participação de dissidentes políticos nas eleições brasileiras de 2026.
O documento foi rejeitado pelo governo brasileiro, que contestou a inclusão de condições políticas nas negociações entre os países.
Eleições de outubro aumentam atenção das autoridades
O alerta da Abin ocorre a duas semanas do primeiro turno das eleições brasileiras, marcado para 4 de outubro.
A agência encaminhou suas avaliações às autoridades responsáveis pela segurança institucional e eleitoral para contribuir com o acompanhamento de possíveis ameaças externas.
A identificação de riscos, entretanto, não representa a comprovação de que os Estados Unidos tenham interferido diretamente no processo eleitoral brasileiro.
O documento trata de possibilidades de influência associadas às medidas econômicas, financeiras e diplomáticas adotadas por Washington, além dos eventuais reflexos dessas ações sobre o cenário político nacional.
Até 19 de setembro, segundo a TV Brasil, o governo federal não havia apresentado um posicionamento oficial sobre o relatório.
Lula e Trump discursam na Assembleia Geral da ONU
As tensões entre os dois países também estarão no contexto da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.
Lula e Trump têm discursos previstos para terça-feira (22 de setembro), durante a abertura do debate geral da organização.
O presidente brasileiro pretende abordar a importância da soberania nacional e do respeito às decisões internas dos países, incluindo a condução das eleições brasileiras.
Não há confirmação de um encontro bilateral entre os dois presidentes durante o evento.
Com a aproximação da votação, o relatório da Abin reforça a atenção das autoridades brasileiras aos possíveis efeitos das disputas internacionais sobre a economia, as relações diplomáticas e o processo eleitoral de 2026.
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