Navios de guerra, aeronaves militares e sistemas de defesa voltaram a ocupar o centro da disputa pelo Estreito de Ormuz nesta terça-feira (14). Os Estados Unidos realizaram novos ataques contra alvos no Irã e restabeleceram o bloqueio marítimo aos portos do país, aprofundando uma crise que já ameaça a navegação comercial e o fornecimento internacional de petróleo.
A nova rodada de bombardeios começou pouco antes da retomada da operação naval. Segundo informações divulgadas pelo Comando Central dos Estados Unidos, o CENTCOM, os alvos estavam relacionados à capacidade iraniana de atacar embarcações comerciais que circulam pela região.
O bloqueio entrou novamente em vigor às 16h no horário da costa leste norte-americana, correspondente às 20h pelo horário de Greenwich. A operação alcança embarcações que seguem para portos e áreas costeiras do Irã ou partem desses locais.
O CENTCOM afirmou que os demais navios poderão continuar circulando pelas águas regionais, desde que não violem as determinações do bloqueio. Marinheiros foram orientados a acompanhar os avisos de navegação e manter contato com as forças norte-americanas ao se aproximarem do Golfo de Omã e do Estreito de Ormuz.
A medida restabelece uma operação aplicada anteriormente entre 13 de abril e 18 de junho. Durante aquele período, os militares norte-americanos afirmam ter redirecionado mais de 140 embarcações, desativado nove navios que não obedeceram às ordens e autorizado a passagem de mais de 50 cargas humanitárias.
Bloqueio amplia pressão sobre Teerã
A ofensiva desta terça-feira atingiu um pequeno número de alvos militares classificados pelos Estados Unidos como ameaças emergentes. O objetivo declarado foi reduzir a capacidade de lançamento de mísseis, drones e outras armas utilizadas contra navios.
Autoridades iranianas relataram explosões nas proximidades de Bandar Abbas, cidade portuária localizada junto ao Estreito de Ormuz, e em áreas próximas a Sirik, no litoral sul do país. Também houve relatos de impactos nas ilhas de Qeshm e Kish, mas parte dessas informações ainda não havia sido verificada de maneira independente.
O bloqueio não representa o fechamento total do Estreito de Ormuz para todas as embarcações. A operação norte-americana está direcionada aos navios ligados aos portos e às atividades comerciais iranianas.
Mesmo assim, a presença de mais de 20 navios de guerra dos Estados Unidos e centenas de aeronaves militares no Oriente Médio aumenta o risco de incidentes, erros de avaliação e confrontos durante abordagens.
O governo de Donald Trump sustenta que as medidas são necessárias para proteger a navegação e impedir ataques contra petroleiros e cargueiros. Teerã considera a operação uma forma de pressão econômica e uma interferência em sua soberania.
O bloqueio deverá dificultar as exportações de petróleo do Irã e a entrada de mercadorias no país. A estratégia pretende reduzir as receitas do governo iraniano e obrigá-lo a aceitar as condições apresentadas por Washington para a reabertura das negociações.
Trump afirmou que o Estreito de Ormuz permanecerá aberto para os demais países, mas não para o comércio iraniano. O presidente também abandonou nesta terça-feira a proposta anunciada no dia anterior de cobrar uma taxa de 20% sobre as cargas transportadas pela passagem marítima.
A cobrança havia provocado críticas da Organização Marítima Internacional, agência das Nações Unidas responsável pelas regras da navegação. A entidade afirmou não existir base jurídica para a imposição unilateral de tarifas obrigatórias em estreitos internacionais. Trump declarou que buscará, em substituição à cobrança, acordos de investimento com países do Golfo.
Retaliação iraniana alcança países do Golfo
O Irã respondeu aos ataques norte-americanos com novos lançamentos de drones e mísseis contra instalações relacionadas aos Estados Unidos e seus aliados.
Teerã afirmou ter atingido uma base norte-americana na Jordânia. O governo jordaniano informou que quatro mísseis balísticos foram derrubados. O Bahrein, que abriga uma importante base naval dos Estados Unidos, também relatou uma tentativa de ataque aéreo iraniano.
Dois petroleiros ligados aos Emirados Árabes Unidos foram atingidos por mísseis de cruzeiro iranianos enquanto navegavam pela faixa sul do Estreito de Ormuz, em águas territoriais de Omã.
Um tripulante indiano morreu e oito pessoas ficaram feridas. Os navios Mombasa B e Al Bahyah sofreram danos significativos e registraram incêndios, posteriormente controlados pelas tripulações. Quatro dos feridos estavam em estado grave.
A Guarda Revolucionária do Irã declarou ter atingido dois superpetroleiros que teriam ignorado advertências, desligado os sistemas de navegação e utilizado uma rota considerada perigosa pelas forças iranianas.
O órgão militar não confirmou se fazia referência aos mesmos navios identificados pelos Emirados Árabes Unidos. Teerã acusa Washington de estimular embarcações a utilizar rotas que o Irã considera ilegais.
Os ataques demonstram que o confronto ultrapassou o território iraniano e alcançou bases, navios e instalações situadas em diferentes países do Golfo.
Governos da região enfrentam o risco de serem diretamente envolvidos, especialmente aqueles que mantêm instalações militares norte-americanas ou apoiam as operações para garantir a circulação de petróleo.
A possibilidade de novas retaliações também aumenta a preocupação com a segurança das tripulações. Empresas de navegação podem suspender viagens mesmo quando existe escolta militar, caso considerem que a proteção oferecida não é suficiente para neutralizar mísseis, drones e minas.
Rota concentra parte do comércio mundial de energia
Antes do início da guerra, aproximadamente um quinto do petróleo e do gás transportados diariamente no mundo passava pelo Estreito de Ormuz. A localização transforma a área em uma das rotas marítimas mais estratégicas e vulneráveis do planeta.
Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Iraque e Irã utilizam a passagem para escoar parte de suas exportações. A maior parcela das cargas segue para mercados asiáticos, como China, Índia, Japão e Coreia do Sul.
A escalada já provocou redução do tráfego, aumento dos seguros marítimos e mudanças nas rotas utilizadas pelos armadores. Os preços do petróleo também avançaram diante do risco de interrupção prolongada do fornecimento.
O petróleo Brent acumulava alta de aproximadamente 15% em sete dias e chegou a cerca de US$ 85 por barril, maior nível desde meados de junho. A valorização pode pressionar os preços dos combustíveis, os custos do transporte e a inflação em diferentes países.
A presença militar norte-americana não elimina completamente as ameaças. Especialistas avaliam que garantir a circulação nos níveis anteriores à guerra exigiria uma operação muito maior, com mais navios, aeronaves e, eventualmente, forças posicionadas em território iraniano.
O Irã preparou durante décadas uma estrutura de guerra assimétrica, com lançadores móveis, mísseis ocultos, drones e unidades dispersas ao longo de uma extensa faixa costeira. Essa organização dificulta a destruição completa das capacidades militares apenas por meio de ataques aéreos.
Mesmo sem realizar um ataque, as forças iranianas podem reduzir o movimento comercial com ameaças transmitidas por rádio, alertas sobre minas ou advertências contra determinadas rotas.
Uma ampliação da operação norte-americana poderia exigir dezenas de milhares de militares e aumentaria o risco de mortes entre as forças dos Estados Unidos. A alternativa de escoltar individualmente embarcações civis também demandaria uma parcela relevante da frota naval por tempo indeterminado.
Negociação fica mais distante
A retomada do bloqueio representa um novo enfraquecimento do acordo provisório firmado em junho. O entendimento previa a interrupção da operação naval norte-americana e a garantia de passagem segura aos navios comerciais.
Washington acusa o Irã de romper o compromisso ao voltar a atacar embarcações. Teerã afirma que os Estados Unidos retomaram as agressões e utilizam os incidentes marítimos para ampliar o controle militar da região.
O vice-ministro das Relações Exteriores iraniano, Kazem Gharibabadi, afirmou que o aumento da pressão econômica e dos ataques não obrigará o país a retornar à mesa de negociações.
Estados Unidos e Irã apresentam suas operações como respostas defensivas às ações do adversário. Esse posicionamento reduz o espaço para concessões e dificulta o trabalho dos países que tentam restabelecer o diálogo.
Paquistão, Catar, Turquia e Omã mantêm canais com as duas partes, mas a sequência de bombardeios e retaliações compromete qualquer tentativa de construir uma nova trégua.
A instabilidade também afeta a população iraniana. Além das perdas provocadas pelos ataques, o bloqueio poderá dificultar a entrada de alimentos, medicamentos, combustíveis e outras mercadorias essenciais.
Os Estados Unidos afirmam que autorizarão cargas humanitárias, mas o transporte poderá ser prejudicado pelos riscos de navegação, pelos custos dos seguros e pela redução do número de empresas dispostas a operar na região.
Sem sinais concretos de recuo, o Estreito de Ormuz permanece como um dos pontos mais perigosos da crise. Uma nova ofensiva iraniana contra navios ou bases poderá desencadear outra resposta norte-americana, enquanto o endurecimento do bloqueio tende a aumentar a pressão econômica sobre Teerã.
A retomada das operações demonstra que o conflito deixou novamente a fase de negociação e retornou ao confronto direto. Enquanto os dois governos disputam o controle da navegação, tripulações, países importadores e mercados de energia permanecem expostos às consequências de uma escalada que pode ultrapassar as fronteiras do Golfo.
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