O apito final da Copa do Mundo de 2026 ainda não foi dado, mas uma mobilização internacional já mira as próximas edições do torneio. Organizações de saúde pública e defesa dos consumidores querem impedir que fabricantes de bebidas açucaradas continuem utilizando a principal competição do futebol como plataforma de divulgação.
A campanha Tirem o Refrigerante de Campo defende que o Mundial deste ano seja o último realizado com a presença desse tipo de patrocinador. O movimento pede que a Federação Internacional de Futebol reveja seus critérios comerciais e encerre, até 2030, os contratos com empresas do setor.
A cobrança alcança diretamente a relação entre a Fifa e a Coca-Cola. A fabricante mantém uma associação formal com a entidade desde 1974, patrocina oficialmente a Copa do Mundo desde 1978 e possui contrato válido até 2030, abrangendo torneios masculinos, femininos e de categorias de base.
Para os integrantes da campanha, a exposição de uma marca de refrigerantes em partidas, estádios, transmissões, embalagens e ações promocionais cria uma ligação entre bebidas açucaradas e conceitos como saúde, desempenho, celebração e união.
O movimento argumenta que essa associação transmite uma mensagem contraditória. Ao mesmo tempo que o futebol incentiva a atividade física, seus principais eventos abrem espaço para a promoção de produtos cujo consumo frequente está relacionado ao ganho de peso, à obesidade, ao diabetes tipo 2 e a outras doenças crônicas.
A iniciativa reúne mais de 100 organizações de diferentes países e conta com a participação de entidades brasileiras, como ACT Promoção da Saúde, Instituto de Defesa de Consumidores, Instituto Desiderata e Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.
Na consulta realizada à página oficial da campanha, mais de 523 mil pessoas já haviam aderido ao pedido dirigido às organizações esportivas. A mobilização pretende ampliar essa pressão antes da revisão do contrato entre a Fifa e a Coca-Cola.
Publicidade esportiva alcança crianças e adolescentes
A principal preocupação das entidades está na capacidade do esporte de influenciar comportamentos e preferências de consumo. A Copa do Mundo alcança públicos de diferentes idades e transforma seleções, jogadores e símbolos do torneio em referências acompanhadas por bilhões de pessoas.
Quando uma marca aparece repetidamente em momentos de gols, comemorações e conquistas, o produto pode ser incorporado à experiência emocional do torcedor. Essa ligação tende a ser especialmente forte entre crianças e adolescentes.
O uso de atletas conhecidos, músicas, brindes, jogos digitais e embalagens comemorativas amplia o poder de convencimento das campanhas. Os públicos mais jovens nem sempre conseguem identificar integralmente os interesses comerciais existentes por trás dessas ações.
Para as organizações, a publicidade ajuda a normalizar a presença das bebidas açucaradas na rotina. A repetição das mensagens pode influenciar preferências alimentares e contribuir para a fidelização dos consumidores desde os primeiros anos de vida.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que o aumento do consumo de bebidas açucaradas está associado ao excesso de peso e à obesidade entre crianças. A entidade também relaciona a ingestão elevada de açúcares livres ao ganho de peso e à ocorrência de cáries.
Uma porção de aproximadamente 330 mililitros de refrigerante pode conter cerca de 35 gramas de açúcar, o equivalente a quase nove colheres de chá. Além da elevada quantidade de calorias, essas bebidas geralmente apresentam baixo valor nutricional.
A crítica não está concentrada no consumo ocasional. O questionamento envolve a exposição contínua e a construção de um ambiente no qual refrigerantes passam a ser apresentados como parte natural da diversão e da prática esportiva.
A diretora executiva do Instituto Desiderata, Renata Couto, alerta que essas estratégias podem produzir consequências duradouras. A associação com o futebol amplia o alcance da publicidade e contribui para consolidar hábitos que podem acompanhar crianças e adolescentes até a vida adulta.
As entidades defendem que a responsabilidade das organizações esportivas deve ser proporcional à influência exercida sobre a sociedade. Para o movimento, a escolha dos patrocinadores não pode considerar apenas o valor financeiro dos contratos.
Campanha denuncia sportswashing
Na carta encaminhada ao presidente da Fifa, Giovanni Infantino, os participantes classificam o uso do futebol pela indústria de bebidas açucaradas como uma forma de sportswashing.
A expressão descreve a tentativa de utilizar o prestígio e a popularidade do esporte para fortalecer a reputação de uma empresa, produto, governo ou instituição.
Nesse caso, o patrocínio ajudaria a reduzir a percepção pública dos impactos relacionados ao consumo frequente de refrigerantes. A marca seria associada a atletas, atividade física e celebrações, enquanto os efeitos sobre a saúde permaneceriam fora da comunicação promocional.
A campanha também chama atenção para os danos ambientais relacionados à produção das bebidas e ao descarte das embalagens plásticas. Dessa forma, a cobrança envolve tanto as consequências sanitárias quanto os impactos ambientais da atividade empresarial.
Uma mobilização realizada em Copacabana, no Rio de Janeiro, levou a discussão para as ruas durante a Copa. Participantes distribuíram cartões vermelhos com acesso à página da campanha e conversaram com torcedores sobre a relação entre os patrocínios esportivos e a promoção de produtos considerados prejudiciais.
O movimento lembra que marcas de cigarro já ocuparam posição de destaque em equipes, campeonatos, carros de corrida e eventos internacionais. A publicidade do tabaco no esporte foi gradualmente limitada após o avanço das evidências sobre seus danos e a criação de restrições legais.
A Fórmula 1 foi um dos principais exemplos dessa mudança. Durante décadas, fabricantes de cigarros estamparam suas marcas nos veículos, uniformes e circuitos. A presença diminuiu com a adoção de proibições publicitárias em diferentes países.
As entidades reconhecem que refrigerantes e produtos de tabaco possuem características e níveis de risco distintos. A comparação está relacionada à estratégia comercial de vincular mercadorias prejudiciais à saúde a imagens positivas construídas pelo esporte.
Para a campanha, a retirada do tabaco demonstra que grandes competições conseguem substituir patrocinadores sem perder relevância. A própria página do movimento estima que a parceria com a Coca-Cola represente uma parcela reduzida da receita total da Fifa, embora garanta ampla exposição durante os torneios.
Patrocínio envolve interesses financeiros
Os contratos comerciais estão entre as principais fontes de financiamento das grandes competições. As empresas pagam para utilizar marcas oficiais, aparecer nos estádios, participar de campanhas e associar seus produtos aos eventos.
A Fifa afirma que seus parceiros fornecem recursos, serviços e suporte considerados importantes para a realização dos torneios. Os pacotes comerciais incluem exposição nos estádios, publicidade em canais oficiais, hospitalidade e oportunidades promocionais.
A substituição de um patrocinador global pode exigir negociações complexas e a busca por empresas capazes de realizar investimentos semelhantes. Os ativistas, porém, sustentam que a dependência financeira não elimina a obrigação de avaliar os efeitos sociais dos produtos promovidos.
A proposta é que entidades esportivas estabeleçam critérios de saúde pública para selecionar parceiros, principalmente em competições com grande audiência entre crianças e adolescentes.
Os organizadores sugerem que o espaço ocupado pelas bebidas açucaradas seja destinado a empresas e iniciativas mais alinhadas à promoção da saúde, à prática esportiva e à sustentabilidade.
A discussão também alcança outros setores presentes no futebol, como bebidas alcoólicas, alimentos ultraprocessados e plataformas de apostas. Em todos esses casos, os críticos questionam a normalização de produtos ou serviços que podem causar danos individuais e coletivos.
A campanha contra os refrigerantes deverá continuar depois do encerramento do Mundial. O principal objetivo é impedir que a parceria seja renovada nas mesmas condições quando o contrato atual chegar ao fim, em 2030.
O movimento também pretende levar o debate a clubes, ligas, confederações nacionais e outras modalidades esportivas. A avaliação é que a mudança precisa alcançar todo o sistema de patrocínios, e não apenas a Copa do Mundo.
Para as entidades, retirar as fabricantes de refrigerantes do futebol não significa impedir escolhas individuais. A proposta é reduzir uma exposição publicitária capaz de influenciar comportamentos, especialmente entre públicos que ainda estão formando seus hábitos.
A reta final da Copa de 2026, portanto, não concentra apenas a disputa pelo título. Fora dos gramados, organizações pressionam a Fifa para que as próximas competições deixem de utilizar a popularidade do futebol como vitrine para bebidas com elevado teor de açúcar.
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