Um rascunho de resolução obtido pelo site Drop Site News indica que o recém-criado Conselho da Paz para Gaza, proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concederia ao chefe do Executivo norte-americano poderes amplos sobre a governança, a reconstrução e a estrutura legal do território palestino. O conteúdo do documento provocou reações críticas de líderes humanitários e expôs divergências entre aliados ocidentais.
O texto, datado de 22 de janeiro e ainda sem assinatura, estabelece que Trump atuaria como presidente do Conselho, com autoridade para aprovar todas as resoluções, nomear altos funcionários civis e militares e supervisionar a administração da justiça em Gaza. Segundo o rascunho, o órgão concentraria poderes legislativos e executivos de transição, além de prerrogativas emergenciais.
Estrutura concentra poder
O documento descreve uma hierarquia de três níveis, com Trump no topo, seguido por um Conselho Executivo e, na base, representantes palestinos com funções limitadas. O Conselho Executivo teria poderes para criar, alterar ou revogar leis civis e criminais vigentes em Gaza.
Entre os nomes listados no Conselho Executivo estão o secretário de Estado Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff, Jared Kushner, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, o presidente do Banco Mundial Ajay Banga, além de assessores diretos de Trump e representantes do setor privado.
Os palestinos seriam representados por um Comitê Nacional para a Administração de Gaza, descrito como técnico e apolítico, mas sem poder decisório. O comitê seria liderado por Ali Shaath, ex-funcionário da Autoridade Palestina, sob supervisão direta do Conselho Executivo.
Para Martin Griffiths, ex-subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, a estrutura proposta não garante representatividade nem responsabilização. Em declaração ao Drop Site News, ele afirmou que os palestinos aparecem apenas na base da pirâmide de poder, excluídos das decisões centrais.
Reações internacionais
A proposta gerou divisões entre aliados dos Estados Unidos. Países como França, Noruega, Suécia, Alemanha, Bélgica e Eslovênia recusaram participar da iniciativa, enquanto o Reino Unido optou por não assinar o documento. O chanceler francês Jean-Noël Barrot declarou que Paris apoia esforços de paz, mas rejeita a criação de um órgão que substitua o papel das Nações Unidas.
Fontes próximas ao presidente francês Emmanuel Macron afirmaram que o escopo do Conselho vai além do que foi autorizado por resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Em contrapartida, países como Hungria, Paquistão, Emirados Árabes Unidos, Israel e Egito aderiram à proposta.
Críticas e incertezas
O rascunho também prevê restrições à participação política e ao acesso à ajuda humanitária para palestinos que não atendam a critérios definidos pelo Conselho, incluindo apoio explícito a uma Gaza considerada “desradicalizada”. Para críticos, essas cláusulas podem aprofundar a exclusão da população local.
Durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, Jared Kushner apresentou propostas de reconstrução que incluem grandes empreendimentos imobiliários e industriais, estimados em 25 bilhões de dólares. A escritora palestina Susan Abulhawa classificou o plano como uma tentativa de apagar a identidade histórica de Gaza.
Até o momento, o documento permanece sem assinatura oficial, o que mantém incertezas sobre se essa versão será adotada. Caso seja aprovado, o texto prevê que todas as medidas entrem em vigor imediatamente após a assinatura presidencial.
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