A primeira fase da operação ’13 Aldeias’, deflagrada nesta terça-feira (22) pela Delegacia Antissequestro contra a organização criminosa conhecida como ‘Povo de Israel’ revelou que o esquema acontece há 20 anos dentro dos presídios do Rio de Janeiro aplicando o golpe do falso sequestro. Os criminosos ligam para as vítimas afirmando que sequestraram alguém da família e pedem um valor de resgate. De acordo com as investigações, os criminosos atuavam a partir de um esquema de lavagem de dinheiro por meio de laranjas e empresas fantasmas. Em dois anos, o esquema movimentou cerca de R$ 70 milhões.
Um dos investigados é Paulo Roberto Maleki, empresário do ramo de joias, que teria atuado para lavar cerca de R$ 2 milhões provenientes de atividades ilícitas da quadrilha, como tráfico de drogas e extorsão praticada por meio dos falsos sequestros. O nome de Malek consta no relatório da Secretaria de Administração Penitenciária, que destaca que desde o ano passado foram apreendidos mais de seis mil telefones nos presídios dominados pela facção. De acordo com o documento, cerca de 18 mil presos controlam 13 unidades prisionais, as chamadas ‘Aldeias’. Os números representam 42% do efetivo prisional do estado.
A Polícia Civil informou que os chefes da facção estão presos: Avelino Gonçalves, o Alvinho, Marcelo Oliveira, o Tomate, Ricardo Martins, o Da Lua, e Jailson Barbosa, o Nem. Eles tiveram a ajuda de cinco policiais penais para receber os celulares na cadeia. São eles: Fábio Ferraz Sodré, que recebeu R$ 54 mil por esse serviço, Bruno Henrique Rodrigues Baldim, que recebeu R$ 192 mil, Plínio Brum Almada, remunerado com R$ 52 mil, Anderson Vieira de Souza, que recebeu da quadrilha R$ 100 mil, e João Paulo De Souza Nascimento, que embolsou R$ 39 mil. João Paulo foi pego em agosto deste ano tentando entrar com drogas no Complexo Penitenciário de Bangu, na Zona Oeste da cidade, e segue detido. Juntos, os policiais penais, que foram afastados dos seus cargos pela Justiça, receberam R$ 437 mil em transações suspeitas.
Nesta terça (22), foram cumpridos 44 mandados de busca e apreensão em presídios controlados pela facção, em Copacabana, na Zona Sul, em Irajá, na Zona Norte, além dos municípios de São Gonçalo, Maricá, na Região Metropolitana, em Rio das Ostras, Búzios e São João da Barra e no Estado do Espírito Santo, onde os criminosos conseguiram aplicar golpes que renderam R$ 7 milhões.
Ainda de acordo com as investigações, a quadrilha agia de forma sistemática para distribuir os cargos e a renda das atividades ilícitas. Quem ficava na ponta do esquema eram os chamados empresários, que conseguiam entrar com os celulares nos presídios; eles recebiam 30% do valor arrecadado com os golpes. Os aparelhos eram entregues para os presos, que ligavam para as vítimas de extorsão. Esses também tinham 30% de ganho. E o recebimento dos valores de resgate eram entregues pelas vítimas aos chamados laranjas, que ficavam com 30% do faturamento total. Dez por cento do lucro era direcionado ao caixa da facção.
Tem ainda outra modalidade de golpe que a quadrilha aplicava. Os criminosos entravam em contato com estabelecimentos comerciais e se identificavam como sendo traficantes da área e exigiam pagamento para supostas dívidas, fazendo ameaças, caso o proprietário se negasse a depositar a quantia informada na conta bancária fornecida pela quadrilha.
Os criminosos conseguiam os dados das vítimas se passando por funcionários da Anatel ou de instituições bancárias. Na ação desta terça (22), 84 contas bancárias utilizadas pela quadrilha foram bloqueadas. Ao ligar para as vítimas, os criminosos utilizavam outro recurso ilícito, o chamado spoofing de telefone, quando o número de telefone real é disfarçado por outro na chamada, com uso de um aplicativo.
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