A sucessão de operações da Polícia Federal envolvendo antigas e atuais lideranças políticas do Rio de Janeiro ampliou a instabilidade no ambiente partidário e passou a interferir diretamente nas articulações para as eleições de 2026. Prisões, buscas, apreensões e medidas cautelares atingiram nomes com influência na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e nas principais legendas fluminenses.
Os casos possuem contextos e fundamentos jurídicos diferentes, mas estão conectados pela Operação Unha e Carne, investigação que avançou sobre suspeitas de fraudes em contratos públicos, lavagem de dinheiro e possíveis relações entre agentes políticos, empresários e organizações criminosas. As apurações ainda estão em andamento, e os investigados têm direito à presunção de inocência.
Canella permanece livre sob medidas cautelares
Um dos episódios de maior repercussão ocorreu com o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella, presidente estadual do União Brasil e anunciado anteriormente como pré-candidato ao Senado.
Canella foi preso em flagrante no dia 7 de julho, durante a sexta fase da Operação Unha e Carne, após a Polícia Federal encontrar um fuzil calibre 5,56 no veículo em que ele estava. A ação investigava um suposto esquema de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio. Segundo os investigadores, o grupo apurado teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos.
A prisão foi posteriormente revogada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Canella deixou o sistema penitenciário no dia 11 de julho, mas passou a utilizar tornozeleira eletrônica. Também foi determinada a entrega do passaporte e a suspensão do porte de arma.
A defesa afirma que o armamento estava registrado em nome do policial militar responsável pela segurança do ex-prefeito e sustenta que a documentação correspondente foi apresentada ao STF. A propriedade e as circunstâncias em que o fuzil foi encontrado continuarão sendo analisadas durante a investigação.
Do ponto de vista eleitoral, a existência de uma investigação ou a aplicação de medidas cautelares não produz automaticamente uma situação de inelegibilidade. Uma eventual candidatura dependerá do pedido de registro, do cumprimento das condições eleitorais e da inexistência de alguma das causas previstas na Lei Complementar nº 64. Também poderá ser afetada por decisões judiciais posteriores ou por mudanças na estratégia partidária.
Thiago Rangel e as investigações em contratos públicos
Outro núcleo da investigação envolve o deputado estadual Thiago Rangel, do Avante, preso preventivamente em 5 de maio durante a quarta fase da Operação Unha e Carne.
A Polícia Federal investiga a existência de uma organização suspeita de fraudar compras de materiais, obras e serviços contratados pela Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro. A defesa do parlamentar declarou que ele nega a prática de ilícitos e que conclusões antecipadas seriam indevidas antes do acesso integral aos elementos da apuração.
A decisão judicial que autorizou as prisões aponta que essa frente investigativa avançou a partir da análise de um computador apreendido em instalações vinculadas ao então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. Entre os arquivos, os investigadores encontraram uma planilha com referências a deputados e indicações para cargos considerados estratégicos no governo estadual.
No campo relacionado a Thiago Rangel, o documento mencionava a Superintendência Regional do Instituto de Pesos e Medidas do Estado do Rio de Janeiro em Campos dos Goytacazes. A decisão registra que uma nomeação para o órgão ocorreu poucos dias depois da data atribuída à planilha. Esses elementos são tratados como indícios dentro da investigação e ainda deverão ser examinados sob contraditório judicial.
A apuração também incorporou informações da Operação Postos de Midas. Segundo a representação da Polícia Federal reproduzida na decisão, empresas, contratos públicos e postos de combustíveis teriam sido utilizados para receber, circular ou ocultar recursos de origem suspeita. O documento menciona transferências, depósitos em espécie e diálogos encontrados em aparelhos eletrônicos, mas as responsabilidades individuais ainda dependem do avanço do processo.
Bacellar é transferido para prisão federal
O ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar também permanece no centro das apurações. No dia 2 de julho, um novo mandado de prisão preventiva foi cumprido contra o ex-parlamentar, que já se encontrava detido no Complexo de Gericinó.
A nova fase da operação investiga supostas conexões entre agentes políticos, contraventores e esquemas de lavagem de dinheiro. A Polícia Federal também apura a suspeita de que Bacellar tenha vazado informações relacionadas a uma operação policial. A defesa nega que ele tenha atuado para prejudicar investigações ou beneficiar organizações criminosas.
Após passar por uma unidade federal em Brasília, Bacellar foi transferido no dia 8 de julho para a Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte. A transferência havia sido determinada por Alexandre de Moraes por razões relacionadas à segurança e à condução das investigações.
Pressão sobre os partidos
A repercussão política ultrapassa a situação individual dos investigados. União Brasil, PL, Avante e outras forças que disputam espaço no Rio acompanham os desdobramentos porque operações envolvendo dirigentes, pré-candidatos e antigos integrantes da direção da Alerj podem provocar mudanças em alianças, candidaturas e chapas proporcionais.
No caso de Canella, o desgaste provocado pela prisão e pela investigação poderá influenciar a decisão sobre a manutenção de sua pré-candidatura ao Senado ou uma eventual mudança de projeto eleitoral. Até o momento, porém, não há impedimento automático decorrente apenas das medidas cautelares.
Também não existe confirmação oficial sobre o número de novas operações que seriam realizadas até as eleições, nem sobre todos os parlamentares que poderiam ser alcançados. Informações sobre futuras prisões, delações ou venda de emendas parlamentares devem ser tratadas como alegações de bastidores enquanto não forem formalmente incluídas em decisões, inquéritos ou manifestações das autoridades.
O impacto político já é evidente. O avanço das apurações sobre contratos, movimentações financeiras, postos de combustíveis e indicações para cargos públicos colocou diferentes grupos sob pressão e transformou a investigação criminal em um dos principais fatores de incerteza da eleição fluminense.
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