As cesarianas deixaram de ser exceção e passaram a ocupar papel dominante nos nascimentos no Brasil. Atualmente, cerca de seis em cada dez partos no país são realizados por meio de cirurgia, proporção muito acima da referência historicamente defendida pela Organização Mundial da Saúde para populações, considerada entre 10% e 15%.
A OMS afirma que a cesárea pode salvar vidas quando há indicação médica, mas alerta que o procedimento não deve ser tratado como rotina para todas as gestantes.
O avanço das cesáreas reacende o debate sobre autonomia da mulher, segurança no parto, violência obstétrica e organização do sistema de saúde. Embora seja indispensável em situações de risco para a mãe ou para o bebê, a cirurgia também envolve riscos por ser um procedimento invasivo, com necessidade de anestesia, corte abdominal e período de recuperação mais complexo.
A mudança no padrão de nascimento no Brasil chama atenção. No início dos anos 2000, o parto normal ainda era maioria. Agora, a lógica se inverteu, e a cesariana aparece como principal via de nascimento em grande parte dos serviços de saúde.
Levantamentos anteriores do UNICEF já apontavam o Brasil entre os países com altas taxas de cesáreas, com índices especialmente elevados na rede privada.
Especialistas destacam que a escolha da via de parto deve considerar o perfil da gestação, o acompanhamento pré-natal, as condições clínicas da mãe e do bebê e a estrutura da maternidade. Em gestações de baixo risco, o parto vaginal costuma ser considerado seguro e pode favorecer a recuperação materna, o contato inicial com o bebê e a amamentação nas primeiras horas após o nascimento.
A cesariana, por outro lado, é fundamental em casos de médio e alto risco, quando há complicações obstétricas, sofrimento fetal, alterações na placenta, posição inadequada do bebê ou outras condições que tornem o parto vaginal inseguro.
O problema, segundo profissionais da área, ocorre quando a cirurgia é indicada sem necessidade clínica clara ou quando a gestante é pressionada a abandonar o plano de parto.
Relatos de mulheres que desejavam parto normal, mas foram estimuladas a aceitar uma cesárea durante o trabalho de parto, evidenciam outro ponto sensível: a violência obstétrica. O termo é usado para descrever situações de desrespeito, constrangimento, pressão indevida, ausência de informação adequada ou procedimentos realizados sem consentimento durante a gestação, o parto ou o pós-parto.
Para profissionais da saúde materno-infantil, a informação é uma das principais ferramentas para reduzir cesáreas desnecessárias. Uma gestante bem orientada consegue compreender os sinais do trabalho de parto, os benefícios e riscos de cada procedimento e as situações em que a cirurgia é realmente necessária.
A remuneração médica, a conveniência de agenda, o medo da dor, a desinformação e a cultura hospitalar também aparecem entre os fatores associados às altas taxas de cesarianas no Brasil.
Em análise publicada pelo Jornal da USP, especialistas apontam que a desinformação das pacientes sobre o parto normal e a organização dos serviços contribuem para manter o índice brasileiro distante do patamar recomendado.
Além dos riscos imediatos, cesáreas sem indicação podem trazer impactos para futuras gestações, como maior chance de complicações placentárias e necessidade de novas cirurgias. Para os bebês, especialistas citam possíveis efeitos respiratórios e maior probabilidade de nascimento antes do início espontâneo do trabalho de parto quando a cirurgia é agendada de forma antecipada.
O desafio, segundo especialistas, não é demonizar a cesárea, mas garantir que ela seja usada da forma correta. Quando bem indicada, a cirurgia é um recurso essencial da medicina e pode evitar mortes maternas e neonatais. Quando usada sem necessidade, porém, pode aumentar custos, riscos e desigualdades no sistema de saúde.
A discussão aponta para a necessidade de ampliar o pré-natal qualificado, fortalecer equipes multiprofissionais, garantir maternidades preparadas para o parto vaginal e assegurar que a decisão sobre a via de parto seja baseada em evidências, segurança e respeito à mulher.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.











