O risco de interrupções no fornecimento mundial de petróleo voltou a provocar forte reação nos mercados internacionais. O barril do tipo Brent, referência global para os preços da commodity, encerrou a quinta-feira cotado a US$ 100,69, com alta de 7%. Foi o primeiro fechamento acima de US$ 100 desde 22 de maio.
O petróleo norte-americano West Texas Intermediate, conhecido como WTI, também avançou. O contrato terminou o dia em US$ 92,19 por barril, aumento de 6,2% e maior cotação de fechamento desde o início de junho.
ATAQUES A NAVIOS SAUDITAS
A valorização ganhou força depois que os houthis, grupo armado que controla parte do Iêmen e mantém aliança com o Irã, anunciaram ataques contra dois navios-tanque que transportavam petróleo saudita pelo Estreito de Bab el-Mandeb.
O grupo declarou ter utilizado drones e mísseis na operação. A agência estatal de notícias da Arábia Saudita confirmou que uma das embarcações pegou fogo após ser atingida no Mar Vermelho, mas não atribuiu formalmente a autoria da ofensiva.
Os houthis também anunciaram um bloqueio naval contra carregamentos de petróleo da Arábia Saudita. Depois dos ataques, alguns petroleiros interromperam a viagem ou mudaram de direção, enquanto os custos de seguro para a navegação no sul do Mar Vermelho chegaram a dobrar para algumas empresas.
ROTAS ESTRATÉGICAS SOB PRESSÃO
Bab el-Mandeb liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao Mar da Arábia. O estreito integra uma rota estratégica utilizada para o transporte de petróleo do Oriente Médio em direção à Europa e a outros mercados.
Dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos mostram que cerca de 4,2 milhões de barris de petróleo e derivados passaram diariamente por Bab el-Mandeb no primeiro semestre de 2025. O volume era inferior ao registrado antes do aumento dos ataques contra embarcações na região.
A situação é ainda mais sensível no Estreito de Ormuz, entre o Irã e Omã. Aproximadamente 20,9 milhões de barris por dia atravessaram a passagem no primeiro semestre de 2025, quantidade equivalente a cerca de 20% do consumo mundial de petróleo e derivados líquidos.
Com a intensificação do conflito, o tráfego em Ormuz caiu para níveis próximos de uma paralisação. Apenas um navio-tanque teria atravessado o estreito na quinta-feira, menor movimento diário registrado desde maio. A combinação das restrições em Ormuz com os ataques em Bab el-Mandeb amplia o temor de uma redução na oferta global.
RISCO PARA A INFLAÇÃO
As empresas que evitam o Mar Vermelho precisam contornar o continente africano pelo Cabo da Boa Esperança. O desvio aumenta o tempo de viagem, o consumo de combustível, os custos de frete e as despesas com seguro.
Uma alta prolongada do petróleo pode pressionar os preços dos combustíveis, do transporte, das passagens aéreas, dos fertilizantes e de diferentes produtos industriais. No Brasil, o impacto sobre gasolina e diesel também dependerá do comportamento do dólar e da política comercial adotada pelas distribuidoras e refinarias.
Aumento do combustível e do frete tende a alcançar outros setores da economia, já que grande parte das mercadorias brasileiras é transportada por rodovias. O cenário também pode dificultar o controle da inflação e influenciar decisões sobre juros em diferentes países.
GUERRA SE INTENSIFICA
A crise no mercado de energia ocorre em meio a uma nova escalada militar. Os Estados Unidos realizaram a 13ª noite de ataques contra alvos iranianos, enquanto o Irã anunciou ofensivas contra instalações norte-americanas no Kuwait, Bahrein, Jordânia e Iraque.
O governo de Donald Trump prometeu novas punições militares contra o Irã e os houthis caso ocorram outros ataques contra embarcações no Mar Vermelho. O Pentágono estima que a guerra já tenha custado US$ 37,5 bilhões e solicitou recursos adicionais ao Congresso para manter as operações.
Em outra frente diplomática, Trump condicionou o acordo de cooperação nuclear civil com a Arábia Saudita à entrada do país nos Acordos de Abraão, iniciativa destinada à normalização das relações entre governos árabes e Israel.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que o acordo não avançará sem a adesão saudita. Riad ainda não anunciou mudança em sua posição, que historicamente vincula a normalização com Israel à criação de um caminho para o reconhecimento de um Estado palestino.
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