As apostas online ganharam força durante a Copa do Mundo e acenderam um novo alerta sobre os impactos das bets no orçamento das famílias e na saúde mental dos brasileiros. Um levantamento da fintech Klavi, com base em dados do Open Finance, mostra que a parcela de brasileiros que enviou dinheiro para plataformas de apostas durante o Mundial triplicou em relação ao mês anterior.
Segundo o estudo, em maio, 11% dos brasileiros analisados haviam transferido recursos para bets. Com o início da Copa do Mundo, esse percentual saltou para 34,8%, o que representa quase um terço da população observada na amostra. O levantamento acompanha dados anonimizados e agregados de cerca de 1,2 milhão de pessoas que autorizaram o compartilhamento de informações financeiras pelo Open Finance, sistema regulado pelo Banco Central.
O avanço das apostas também aparece no volume de dinheiro movimentado. Dados do Placar Klavi indicaram que, até o fim de junho, brasileiros já haviam enviado mais de R$ 507 milhões para casas de apostas durante a Copa. O valor médio diário depositado por usuário, que antes do torneio girava em torno de R$ 188, passou a ficar acima dessa média durante a competição.
A explosão das bets no período do Mundial está diretamente ligada à presença massiva de publicidade nas transmissões esportivas, nas redes sociais e em canais digitais. Narradores, apresentadores, influenciadores e plataformas de streaming passaram a associar a emoção dos jogos à possibilidade de apostar em tempo real, criando um ambiente de estímulo constante ao consumo desse tipo de serviço.
Especialistas em saúde mental alertam que esse modelo de publicidade pode atingir especialmente pessoas vulneráveis ao jogo compulsivo. O problema, segundo profissionais da área, é que a dependência em apostas nem sempre é percebida no início. Muitas pessoas começam apostando pequenos valores, ganham em algum momento e depois passam a tentar recuperar perdas, entrando em um ciclo de risco financeiro e emocional.
Relatos de apostadores mostram que a perda de controle pode gerar endividamento, conflitos familiares, ansiedade, depressão e isolamento. Em alguns casos, a pessoa só procura ajuda quando já perdeu grandes quantias ou comprometeu sua renda mensal. Por isso, especialistas defendem que o tema seja tratado como questão de saúde pública, com campanhas de prevenção e regras mais duras para a publicidade.
O governo federal lançou uma plataforma centralizada de autoexclusão para apostas. A ferramenta permite que o cidadão bloqueie voluntariamente o próprio acesso a plataformas autorizadas, impeça novos cadastros com seu CPF e deixe de receber publicidade direcionada de casas de apostas. O acesso exige conta Gov.br de nível prata ou ouro.
Segundo a Rádio Senado, a plataforma já somava mais de 570 mil cadastros até maio de 2026. O sistema permite o bloqueio voluntário em todas as bets regularizadas no país e foi criado em meio ao crescimento das preocupações com ludopatia, transtorno associado ao vício em jogos de azar.
A preocupação também envolve a diferença entre bets autorizadas e plataformas ilegais. O levantamento da Klavi considera apenas movimentações identificadas em casas regularizadas, o que significa que o tamanho real do mercado pode ser ainda maior quando se consideram sites não autorizados ou operações fora do ambiente regulado.
Com a Copa do Mundo ainda em andamento, a tendência é que o debate sobre publicidade, proteção ao consumidor e saúde mental ganhe ainda mais força. Para especialistas, o desafio é equilibrar a regulamentação do setor com medidas capazes de proteger usuários vulneráveis, especialmente em períodos de grande apelo emocional, como grandes competições esportivas.
A popularização das bets transformou as transmissões esportivas em uma vitrine permanente para o mercado de apostas. Mas, diante do crescimento acelerado de usuários e valores movimentados, o país passa a discutir até que ponto a aposta deixou de ser apenas entretenimento e passou a representar um risco social.
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