A decisão das famílias brasileiras sobre o momento de entregar o primeiro smartphone às crianças está passando por mudanças. Um levantamento realizado em 2025 mostra que a presença de celulares próprios diminuiu entre os grupos mais jovens, enquanto a idade média para receber o primeiro aparelho chegou a 10 anos e 3 meses.
Os dados fazem parte da pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box, que ouviu 2.005 brasileiros donos de smartphones e responsáveis por crianças e adolescentes de até 16 anos.
Entre as crianças de 4 a 6 anos, a parcela que possui celular próprio caiu de 30% para 17%. Na faixa de 7 a 9 anos, o índice passou de 49% para 45%. Já entre aqueles de 10 a 12 anos, a proporção recuou de 76% para 69%.
A redução foi observada na maioria das faixas etárias analisadas, com exceção do grupo de adolescentes entre 13 e 16 anos. O cenário ocorre em meio ao aumento das discussões sobre os efeitos da exposição precoce às telas, às redes sociais e ao uso prolongado de dispositivos eletrônicos.
Uso de celulares nas escolas
As mudanças na relação das crianças com os smartphones também ocorrem em um momento de novas regras para o uso desses aparelhos no ambiente escolar.
A Lei nº 15.100/2025 estabeleceu regras para a utilização de dispositivos eletrônicos pessoais por estudantes da educação básica. A legislação restringe o uso dos aparelhos durante aulas, recreios e intervalos, embora preveja exceções, como situações relacionadas à saúde.
A medida tem entre seus objetivos contribuir para a proteção da saúde física, mental e psíquica de crianças e adolescentes, além de favorecer a aprendizagem e a convivência nas escolas.
O Ministério da Educação destaca que a legislação não tem como objetivo retirar a tecnologia do ambiente escolar. A proposta é incentivar um uso mais consciente dos dispositivos e direcioná-los, quando apropriado, para atividades pedagógicas.
Tempo de tela aumenta com a idade
O período diário dedicado ao uso de telas também aparece entre as preocupações dos responsáveis. Segundo o levantamento, o tempo médio de utilização dos dispositivos cresce conforme a idade da criança.
Entre crianças de 0 a 3 anos, a média registrada é de 1 hora e 28 minutos por dia. Já entre adolescentes de 13 a 16 anos, o tempo chega a 3 horas e 44 minutos.
A percepção dos pais sobre o excesso de uso também aumenta entre as faixas etárias. Mais da metade dos responsáveis por crianças a partir dos 4 anos considera que os filhos passam tempo demais no celular. Entre adolescentes de 13 a 16 anos, essa avaliação chega a 70%.
Debate também ocorre em outros países
A discussão sobre o adiamento do primeiro smartphone não está restrita ao Brasil. Nos Estados Unidos, iniciativas como a Wait Until 8th estimulam famílias a esperar até etapas mais avançadas da formação escolar antes de oferecer um smartphone aos filhos.
De acordo com a organização, mais de 155 mil famílias participam do compromisso de postergar a compra do aparelho.
Pesquisas acadêmicas também analisam os fatores que influenciam essa decisão. Um estudo publicado no Journal of Children and Media investigou mães participantes do movimento e identificou aspectos como percepção de riscos, conflitos familiares e pressão social entre os elementos considerados na escolha sobre o momento de permitir o uso do aparelho.
Não existe idade única
Apesar das discussões sobre o adiamento do smartphone, especialistas não estabelecem uma idade universal que seja adequada para todas as crianças.
Aspectos como maturidade, capacidade de seguir regras, necessidade de comunicação, rotina familiar e nível de autonomia podem influenciar a decisão dos responsáveis.
A orientação da Common Sense Media é que os pais avaliem essas características individualmente, em vez de utilizar apenas uma idade fixa como referência. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria também recomenda limites para o uso de telas e acompanhamento dos responsáveis, considerando a faixa etária.
Diante desse cenário, a decisão sobre o primeiro smartphone envolve questões que vão além da possibilidade de comunicação. Segurança, privacidade, desenvolvimento, exposição às redes sociais e formação de hábitos digitais passaram a fazer parte das preocupações das famílias.
Os resultados da pesquisa não permitem afirmar que todos os pais brasileiros estejam adiando a entrega do primeiro celular.
A redução observada entre as crianças mais novas, porém, indica que o momento considerado adequado para introduzir o smartphone na rotina infantil se tornou um tema cada vez mais discutido por famílias, escolas e especialistas.
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