A retomada dos ataques entre Estados Unidos e Irã ampliou a tensão no Golfo e provocou uma nova onda de instabilidade no mercado internacional de petróleo. Nesta segunda-feira, 20 de julho, o barril do tipo Brent chegou a ser negociado a US$ 91,42, maior nível desde 11 de junho, antes de recuar para US$ 87,94 diante de sinais de uma possível retomada das negociações diplomáticas.
A movimentação ocorre depois de mais um fim de semana marcado por lançamentos de mísseis, drones e bombardeios. Os Estados Unidos realizaram a nona noite consecutiva de ataques contra alvos iranianos, enquanto Kuwait e Bahrein relataram novas ofensivas atribuídas ao Irã.
Segundo o Comando Central dos Estados Unidos, as operações norte-americanas atingiram sistemas de defesa aérea, radares costeiros, estruturas de lançamento de mísseis e drones e pequenas embarcações militares. O órgão também informou ter utilizado, pela primeira vez nessa fase do confronto, drones de ataque marítimo. As informações foram divulgadas pelas próprias forças norte-americanas e representam a versão oficial de Washington.
Do lado iraniano, a Guarda Revolucionária declarou ter atacado instalações militares dos Estados Unidos e de países aliados no Golfo. Parte das alegações apresentadas por Teerã, incluindo danos a bases, radares e depósitos de munição, ainda não recebeu confirmação independente.
Estreito de Ormuz está no centro da crise
O principal foco da disputa é o Estreito de Ormuz, passagem marítima que conecta o Golfo ao Oceano Índico. Antes do início da guerra, aproximadamente 20% do petróleo consumido no mundo passava pela rota, tornando qualquer interrupção uma ameaça direta ao abastecimento energético internacional.
Dados do mercado marítimo mostram que apenas quatro embarcações atravessaram o estreito no domingo. No dia anterior, haviam sido oito. A redução do tráfego alimentou o temor de atrasos nas exportações, elevação dos seguros marítimos e aumento dos custos de transporte.
A Guarda Revolucionária afirmou que dois petroleiros foram imobilizados após explosões em uma rota ao sul do estreito. A Reuters informou, porém, que não conseguiu verificar imediatamente as circunstâncias dos episódios.
Trump propôs controle e cobrança
Em 13 de julho, Donald Trump declarou que os Estados Unidos poderiam assumir o controle operacional do Estreito de Ormuz. O presidente norte-americano também propôs que o país recebesse uma compensação equivalente a 20% das cargas transportadas pela passagem, como forma de ressarcimento pelos custos de segurança.
Trump não detalhou como a cobrança seria executada nem apresentou uma base jurídica internacional para a medida. O Irã reagiu afirmando que o tráfego normal somente seria restabelecido com o fim das operações militares norte-americanas na região.
Tensão também alcançou o Iêmen
Outro foco de instabilidade está no Iêmen. Os houthis, grupo armado alinhado ao Irã e que controla a capital Sanaa e áreas do norte do país, acusaram a Arábia Saudita de atacar o aeroporto internacional da cidade no dia 13 de julho.
A autoria, entretanto, permanece contestada. O governo iemenita reconhecido internacionalmente reivindicou a operação e declarou que o objetivo era impedir o pouso de uma aeronave iraniana. Até o momento, não há confirmação pública de participação direta da Arábia Saudita.
Os houthis prometeram retaliar. A ameaça aumenta o risco de expansão dos confrontos para o Mar Vermelho e para o Estreito de Bab el-Mandeb, outra rota estratégica para o transporte de petróleo, combustíveis e mercadorias.
Mediação tenta novo cessar-fogo
Apesar da intensificação dos ataques, intermediários apresentaram uma proposta de cessar-fogo de dez dias. A iniciativa pretende interromper temporariamente as operações militares e criar condições para a recuperação do acordo provisório firmado no mês anterior entre Washington e Teerã.
A possibilidade de negociação levou o petróleo a devolver parte da alta registrada no início do dia. Ainda assim, o fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz permanece reduzido, mantendo o mercado sob forte volatilidade.
Royalties podem aumentar, mas efeito não é imediato
No Brasil, uma valorização prolongada do petróleo pode elevar, em tese, as receitas recebidas por estados e municípios beneficiários de royalties. A compensação é calculada considerando a alíquota de cada campo, o volume mensal produzido e o preço de referência dos hidrocarbonetos.
Isso significa que uma alta internacional pode contribuir para o aumento dos repasses nos meses seguintes, desde que seja mantida e esteja acompanhada de fatores como produção, câmbio e preço de referência. Uma elevação durante apenas alguns pregões não garante, sozinha, reforço imediato nos cofres públicos.
Risco para os combustíveis
A valorização do petróleo também aumenta a pressão sobre gasolina, diesel, gás de cozinha, querosene de aviação e demais derivados. No entanto, não existe um repasse automático e integral da cotação internacional para as bombas brasileiras.
A Petrobras afirma que procura evitar a transferência imediata de oscilações conjunturais do petróleo e do câmbio. A empresa considera o mercado interno, as cotações internacionais, seus custos de refino, logística e importação, além da necessidade de manter preços competitivos.
O valor final cobrado nos postos também inclui tributos, biocombustíveis, custos de distribuição e margens de revenda. Por isso, o impacto para o consumidor dependerá principalmente da duração da crise e da eventual consolidação do petróleo em um patamar mais elevado.
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