Leve, colorido e profundamente ligado ao modo de vida das comunidades ribeirinhas, o artesanato de miriti tornou-se uma das principais expressões culturais de Abaetetuba, município paraense conhecido como a Capital Mundial do Brinquedo de Miriti.
A produção reúne conhecimentos transmitidos dentro das famílias e transforma partes do miritizeiro, palmeira encontrada principalmente em áreas úmidas e alagadas, em brinquedos, esculturas, objetos decorativos e peças utilitárias.
Barcos, pássaros, cobras articuladas, personagens populares e cenas do cotidiano amazônico ganham forma pelas mãos dos artesãos. Mais do que produtos comerciais, as peças preservam memórias e retratam a relação das comunidades com os rios, a floresta, a religiosidade e o trabalho.
A própria Prefeitura de Abaetetuba reconhece o brinquedo de miriti como um dos elementos mais representativos do município e da cultura do Pará.

Técnica atravessa gerações
A fabricação começa com o aproveitamento do material leve retirado do miritizeiro. Depois de preparado, ele é cortado, lixado, esculpido, montado e pintado manualmente.
Alguns brinquedos possuem mecanismos simples e engenhosos. A tradicional cobra de miriti, por exemplo, recebe em seu interior um material flexível que permite o movimento de um lado para o outro sem que a estrutura se quebre.
As técnicas costumam ser aprendidas ainda na infância. Pais, filhos e outros parentes dividem os ateliês, mantendo vivo um conhecimento construído ao longo de décadas.
Com o passar do tempo, os artesãos também incorporaram novos acabamentos, ferramentas e desenhos, ampliando a variedade dos produtos sem abandonar o processo manual e a identidade amazônica.
Símbolo do Círio de Nazaré
A ligação entre o miriti e o Círio de Nazaré tornou o artesanato ainda mais conhecido. Durante o período da celebração religiosa, brinquedos produzidos principalmente em Abaetetuba ocupam feiras e ruas de Belém.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional considera os brinquedos de miriti parte do conjunto de símbolos e práticas associados ao Círio de Nossa Senhora de Nazaré.
A maior parte da produção apresentada durante a festividade vem de Abaetetuba, segundo informações divulgadas pelo Governo do Pará.
As peças representam barcos, animais, casas, trabalhadores e outros elementos da vida amazônica. Para muitos visitantes, comprar um brinquedo de miriti tornou-se parte da experiência cultural do Círio.
Artesanato garante sustento
A tradição também possui forte impacto econômico. A venda dos brinquedos ajuda a sustentar famílias, movimenta pequenos ateliês e fortalece o comércio local.
Na reportagem, um dos artesãos relata que a renda obtida com as peças permitiu criar os filhos e investir na construção do próprio imóvel.
A atividade envolve diferentes etapas, desde a retirada e preparação da matéria-prima até a montagem, pintura, transporte e comercialização. Feiras realizadas em Abaetetuba e Belém funcionam como importantes vitrines para os produtores.
A Feira do Artesanato de Miriti, realizada durante o Círio, reúne dezenas de expositores e artesãos vindos do município para comercializar a produção na capital paraense.
Associações fortalecem produtores
A organização coletiva também ajudou a ampliar a presença do artesanato no mercado. Associações como a Miritong passaram a representar os produtores, buscar parcerias e promover ações de capacitação.
Universidades, instituições de pesquisa e entidades de apoio aos pequenos negócios participam de projetos voltados ao desenvolvimento da cadeia produtiva.
Desde o fim da década de 1990, iniciativas de capacitação em gestão, planejamento, marketing e empreendedorismo contribuíram para que os artesãos se reconhecessem também como donos de pequenos negócios.
O apoio permitiu melhorar acabamentos, diversificar produtos e alcançar novos consumidores. Hoje, além dos brinquedos tradicionais, o miriti aparece em objetos de decoração, materiais educativos e até projetos ligados à tecnologia. O Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro destaca, por exemplo, a criação de óculos de realidade virtual produzidos com miriti para uso em escolas.
Indicação geográfica pode valorizar produção
Artesãos e instituições também trabalham para obter o reconhecimento de indicação geográfica para o miriti de Abaetetuba.
O registro identifica produtos cuja reputação, características ou modo de produção estão ligados a determinado território. A certificação pode ampliar a proteção do nome, agregar valor comercial e reforçar a origem das peças.
O miriti de Abaetetuba já aparece em estudos e levantamentos como um dos produtos paraenses com potencial para receber esse tipo de reconhecimento.
Para os envolvidos, o processo deve ser conduzido com a participação direta dos artesãos, responsáveis por preservar os conhecimentos e definir os caminhos da atividade.
Uso sustentável da palmeira
O miritizeiro possui múltiplas utilidades. Os frutos podem ser consumidos in natura ou utilizados no preparo de doces, bolos, mingaus, bebidas e outros produtos. Folhas, fibras e partes do caule também são aproveitadas em construções, utensílios e artesanato.
No artesanato, o manejo adequado permite retirar a matéria-prima sem derrubar a palmeira. Essa característica reforça o potencial sustentável da cadeia, desde que a extração respeite o ciclo de recuperação da planta e os ambientes de várzea.
Em Abaetetuba, cada peça representa mais do que uma lembrança turística. O brinquedo de miriti reúne trabalho, criatividade, identidade e memória, mantendo viva uma tradição que nasceu às margens dos rios amazônicos e conquistou reconhecimento dentro e fora do Pará.
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