Durante décadas, a captura e armazenamento de carbono (CAC ou CCS) foi vista como uma solução promissora — e até milagrosa — para enfrentar as mudanças climáticas sem abandonar os combustíveis fósseis de forma imediata. A lógica era simples: se não pudermos parar de emitir CO₂, poderíamos ao menos capturá-lo do ar e enterrá-lo com segurança no subsolo.
Mas um novo e abrangente estudo científico internacional está desafiando esse otimismo. Publicado nesta semana, o levantamento revela que o “cofre” geológico da Terra para armazenar carbono está longe de ser infinito. O que antes era estimado em até 40 mil gigatoneladas (Gt) de CO₂ de capacidade, agora é reduzido drasticamente para apenas 1.460 Gt, segundo os cientistas — um valor que os autores chamam de “limite planetário prudente”.
Para ilustrar a diferença, é como descobrir que um disco rígido de 40 terabytes, na verdade, só comporta 1,5 terabyte de dados utilizáveis.
Por que a estimativa caiu tanto?
Os pesquisadores analisaram as limitações físicas, técnicas, ambientais e políticas para o armazenamento de CO₂ em formações geológicas profundas, levando em consideração cinco principais restrições:
- Risco sísmico: Áreas com atividade tectônica significativa foram excluídas devido à possibilidade de que a injeção de CO₂ reative falhas geológicas, provocando terremotos.
- Áreas protegidas e regiões polares: Em respeito a acordos internacionais como o de Kunming-Montreal, foram eliminadas zonas ambientalmente sensíveis e reservas naturais.
- Proximidade de áreas urbanas: Estabeleceu-se uma zona de exclusão de 25 km ao redor de cidades para evitar riscos à saúde pública, como a contaminação de aquíferos por vazamentos de CO₂.
- Limites tecnológicos em oceanos: A captura em áreas offshore está limitada a até 300 metros de profundidade, além do que os custos e riscos se tornam proibitivos — como mostrou o desastre da Deepwater Horizon.
- Fronteiras internacionais: Armazenar carbono em território estrangeiro representa um imbróglio jurídico e diplomático para o qual ainda não há soluções concretas.
Um recurso finito, não uma saída mágica
A grande mensagem do estudo é clara: o armazenamento de carbono não é uma solução ilimitada nem uma desculpa para adiar a transição energética. Trata-se de um recurso finito e, portanto, deve ser tratado como uma poupança intergeracional, usado com critério, especialmente em indústrias difíceis de descarbonizar, como as de cimento e aço.
“A cada tonelada de CO₂ que enterramos hoje para compensar emissões, estamos tirando a possibilidade de que futuras gerações usem esse recurso para enfrentar seus próprios desafios climáticos”, alertam os autores.
Captura de carbono ainda é útil — mas com limites
O estudo não enterra a tecnologia de CAC, mas reforça que ela não pode ser a “muleta” para continuar queimando combustíveis fósseis indefinidamente. A captura de carbono será fundamental para aplicações pontuais, mas não resolve o problema estrutural da crise climática.
A principal lição é um chamado à realidade: não há tecnologia milagrosa que substitua a tarefa mais urgente e difícil do nosso tempo — parar de emitir gases de efeito estufa.
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