A aposta na inteligência artificial como alternativa para reduzir equipes e despesas começa a levar algumas empresas a rever seus planos. Depois de dispensarem profissionais para transferir tarefas a sistemas automatizados, organizações de diferentes setores perceberam que a tecnologia ainda não consegue executar todas as atividades com a mesma eficiência e passaram a recontratar antigos funcionários.
Um levantamento divulgado pela agência Associated Press mostra que companhias que investiram na substituição de trabalhadores por modelos e agentes de IA estão reconsiderando suas estratégias. No início deste ano, a consultoria de recrutamento Robert Half também identificou empresas que precisaram trazer de volta profissionais para ocupar as mesmas funções ou cargos semelhantes.
Entre os principais desafios estão a necessidade de supervisão humana constante e a dificuldade dos sistemas em reproduzir conhecimentos adquiridos na prática, compreender particularidades dos processos internos e lidar com situações que exigem avaliações mais complexas.
“Quando é necessário pensamento crítico, colaboração, criatividade e conhecimento institucional, a IA simplesmente não consegue reproduzir essas habilidades”, afirmou Bill Driscoll, executivo da Robert Half.
Ford traz de volta 350 engenheiros
Um dos casos que ilustram esse movimento ocorreu na montadora Ford. No fim de junho, a empresa recontratou 350 engenheiros experientes para orientar profissionais mais novos e contribuir para o aperfeiçoamento de seus sistemas de inteligência artificial.
A decisão aconteceu em meio a problemas de qualidade que geraram prejuízos bilionários para a companhia. Com a retomada desses profissionais, a experiência acumulada ao longo dos anos passou a ser utilizada para identificar falhas, aprimorar procedimentos e melhorar o desempenho das ferramentas tecnológicas.
O episódio mostra que a automação de atividades técnicas não elimina necessariamente a necessidade de profissionais qualificados. Em determinadas operações, o conhecimento prático continua sendo fundamental para identificar problemas que os sistemas não conseguem reconhecer sozinhos.
Conhecimento dos funcionários ainda faz falta
A situação tem sido chamada de “bumerangue da IA” e está relacionada à dificuldade de substituir atividades que vão além das tarefas formalmente atribuídas aos trabalhadores.
Esse conjunto de conhecimentos e práticas é frequentemente descrito como “trabalho invisível”. São ações informais, experiências acumuladas e soluções desenvolvidas no cotidiano que ajudam a manter as operações funcionando, mas nem sempre aparecem nos manuais ou procedimentos oficiais.
Em áreas como contabilidade e processamento de dados, por exemplo, parte das atividades depende de informações que não estão devidamente documentadas. Essa característica dificulta a transferência completa das rotinas para sistemas automatizados.
O atendimento ao consumidor também apresenta limitações. De acordo com Brooks Holtom, professor da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, os chatbots ainda precisam encaminhar casos mais delicados a profissionais humanos. Isso ocorre especialmente quando é necessário interpretar emoções, compreender a gravidade de uma reclamação ou encontrar soluções que não estejam previstas nas respostas automáticas.
Trabalhadores podem exigir melhores condições para voltar
A recontratação também envolve mudanças na relação entre empresas e profissionais. Lucy Beaumont, vice-presidente global da companhia britânica de gestão de talentos SHL, avalia que funcionários chamados de volta podem negociar salários maiores e buscar garantias de que não serão novamente substituídos por algoritmos.
A insegurança não se limita a quem já foi dispensado. Em julho, mais de 4.500 funcionários do Google assinaram uma petição pedindo garantias de indenização e a possibilidade de demissão voluntária diante dos cortes de pessoal.
Para Beaumont, a decisão de dispensar trabalhadores em favor da inteligência artificial e depois recorrer novamente à experiência dessas pessoas pode comprometer a confiança entre empregados e empregadores.
“Voltar para uma empresa que o demitiu e o substituiu por IA significa que a confiança, a segurança psicológica e a relação com o empregador foram quebradas; e isso é extremamente difícil de reconstruir”, concluiu.
Os episódios mostram que a adoção da inteligência artificial exige planejamento que vá além da capacidade de automatizar tarefas. A tecnologia pode assumir diversas atividades, mas sua integração às operações também depende de supervisão, conhecimento institucional e profissionais preparados para lidar com situações que ainda não podem ser resolvidas apenas por sistemas automatizados.
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