A organização Avós da Praça de Maio anunciou nesta segunda-feira (7), em Buenos Aires, a restituição da identidade do neto número 140, vítima de sequestro durante a ditadura militar argentina (1976–1983). O homem nasceu em 17 de abril de 1977, no centro clandestino de detenção conhecido como “La Escuelita”, na cidade de Bahía Blanca.
Ele é filho dos militantes Graciela Alicia Romero e Raúl Eugenio Metz, desaparecidos políticos até hoje não localizados. O bebê foi retirado da mãe logo após o parto, ocorrido em cativeiro, e criado sob identidade falsa — prática comum naquele período.
A descoberta foi possível graças a uma denúncia anônima recebida pelas Avós da Praça de Maio. A partir daí, iniciou-se uma investigação conjunta com a Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (CoNaDI) e a Unidade Especializada para Casos de Apropriação de Crianças durante o Terrorismo de Estado (UFICANTE). O homem aceitou realizar o exame de DNA no Banco Nacional de Dados Genéticos, que confirmou sua origem biológica.
“Cada restituição confirma o plano sistemático da ditadura de sequestro e apropriação de menores. Seguiremos buscando os mais de 300 netos e netas que ainda vivem sem saber sua verdadeira identidade”, declarou a entidade em comunicado.
A presidente da organização, Estela de Carlotto, de 94 anos, participou da coletiva que anunciou a descoberta. A luta por esse neto começou logo após o desaparecimento de Graciela e Raúl, liderada inicialmente pelos pais do casal e continuada por Adriana, filha mais velha dos militantes e irmã do homem agora reencontrado.
A Avós da Praça de Maio também aproveitou o anúncio para criticar a recente intervenção do governo de Javier Milei no Banco Nacional de Dados Genéticos. A medida, que retira a autonomia administrativa e financeira da instituição, tem sido alvo de fortes protestos por entidades de direitos humanos, que temem prejuízos às investigações em andamento.
A ditadura argentina foi uma das mais violentas da América Latina. Estima-se que mais de 30 mil pessoas foram mortas ou desapareceram. Entre os crimes cometidos, estava o sequestro de bebês de presas políticas grávidas. As crianças eram entregues a famílias ligadas ao regime, com registros falsificados.
Mesmo após quase cinco décadas, a busca por verdade e justiça continua. E, com a identificação do neto 140, a história reafirma que essa luta coletiva, liderada por mães e avós, resiste e transforma dor em memória.
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