A eleição de Abdul El-Sayed para o Senado dos Estados Unidos representa um marco inédito na história política do país. Filho de imigrantes egípcios, o democrata venceu a disputa em Michigan e se tornará o primeiro muçulmano a ocupar uma cadeira na Casa. Ele derrotou o republicano Mike Rogers nas eleições de meio de mandato de 2026, segundo os resultados divulgados pela Associated Press.
Com mais de 70% das urnas apuradas, El-Sayed já apresentava uma vantagem suficiente para que a vitória fosse projetada. O democrata registrava 51,9% dos votos, contra 46,1% de Rogers. Com o resultado, ele ocupará a vaga deixada por Gary Peters, que representa Michigan no Senado desde 2015.
Aos 42 anos, El-Sayed nasceu em Rochester Hills e construiu sua trajetória profissional na área da saúde pública. Médico formado pela Universidade Columbia, foi diretor de saúde de Detroit e do condado de Wayne. Durante a campanha, defendeu a ampliação do atendimento médico público, a cobrança de mais impostos sobre grandes fortunas e o fim da assistência militar dos Estados Unidos a Israel.
Religião foi explorada por adversários durante a campanha
A origem familiar e a fé muçulmana de El-Sayed estiveram entre os principais alvos de ataques ao longo da disputa eleitoral. O presidente Donald Trump chegou a chamá-lo de “jihadista” e associá-lo, sem apresentar provas, à Irmandade Muçulmana. Em outra declaração, sugeriu que o democrata precisaria passar por um detector de metais para entrar no Capitólio.
Durante um comício, Trump afirmou que uma vitória de El-Sayed e dos democratas poderia permitir a entrada de “hordas de jihadistas” nos Estados Unidos. O republicano Mike Rogers também reproduziu acusações sobre supostas ligações familiares do adversário com a organização, embora não houvesse evidências que sustentassem as alegações.
El-Sayed reagiu aos ataques afirmando que as declarações não atingiam apenas sua candidatura, mas também os valores de inclusão associados à sociedade americana. Na avaliação do democrata, seus adversários tentavam tirar o foco de temas como economia, saúde e qualidade de vida para concentrar a disputa em sua religião e origem familiar.
Após a confirmação da vitória, o senador eleito voltou a ironizar as provocações do presidente. Em seu discurso, respondeu às formas como Trump se referia a ele: “Para você, é ‘Senador Mohamed’, amigo”.
Posição sobre a guerra em Gaza provocou divisões no partido
A política externa americana, especialmente o apoio a Israel durante a guerra na Faixa de Gaza, também teve peso na campanha. El-Sayed classificou as ações israelenses como genocídio e defendeu que os Estados Unidos interrompessem a assistência militar ao país.
O democrata propôs ainda direcionar recursos destinados à área militar para setores como saúde e educação. Suas posições provocaram divergências dentro do próprio Partido Democrata, principalmente durante as primárias de agosto, quando disputou a indicação contra a deputada Haley Stevens.
A campanha interna foi marcada pelo debate sobre Gaza e pela influência do AIPAC, grupo de lobby pró-Israel que, segundo as informações divulgadas sobre a disputa, teria investido cerca de US$ 30 milhões em apoio a Stevens. Apesar do volume de recursos, a deputada acabou derrotada por El-Sayed.
A tensão aumentou dois dias antes da eleição geral, quando Stevens anunciou apoio ao republicano Mike Rogers. A parlamentar justificou sua decisão com preocupações relacionadas ao antissemitismo, mas a manifestação provocou críticas dentro do próprio partido.
O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, condenou publicamente o apoio ao adversário e classificou a atitude como uma “traição desprezível”.
Bernie Sanders e Barack Obama apoiaram a candidatura
El-Sayed também recebeu apoio de nomes importantes da ala progressista do Partido Democrata. Entre eles estavam o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Na etapa final da campanha, o ex-presidente Barack Obama também declarou apoio ao democrata.
As propostas apresentadas pelo senador eleito incluem a criação de um sistema de saúde inspirado no Medicare for All, que busca ampliar o acesso da população aos serviços médicos, além de uma tributação maior sobre grandes patrimônios e mudanças na política externa dos Estados Unidos.
A vitória em Michigan reforça a presença de pautas progressistas no debate interno do Partido Democrata e representa uma mudança histórica na composição do Senado americano. Além do significado simbólico de ser o primeiro muçulmano eleito para a Casa, a chegada de El-Sayed ao Congresso coloca em evidência discussões sobre saúde pública, desigualdade econômica, imigração e a relação dos Estados Unidos com Israel.
Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Estado do Rio.














