A utopia de uma vida sem problemas está cada vez mais difícil de se sustentar, mas existem hábitos funcionais que podem ajudar a conviver e a lidar com as questões aflitivas. Identificar ambientes e relações disfuncionais é uma delas.
Uma paciente que vivenciou uma juventude de turbulências emocionais por conta de dependência química, procurou auxílio depois de uma recaída. Foram longos anos de sobriedade, compensado por bom posicionamento profissional, relação familiar pacificada e uma frequência permanente a um grupo de mútua ajuda.
A fase de sobriedade de Dora (nome fictício) permitiu construir novos círculos de relações e estabilidade financeira. Como diz o dito, “o hábito faz o monge”. Longe dos gastos supérfluos, o dinheiro rendeu.
Distanciando-se das amizades que estimulavam o consumo de bebida alcoólica, eu diria que o networking em novos ambientes, traçou um divisor de águas na vida de Dora: o antes, com a compulsão por bebida, e o depois, quando passou a seguir os 12 passos dos Alcoólicos Anônimos (AA). Foram anos seguindo à risca o primeiro passo: “Evite sempre o primeiro gole”.
Mas a Era de Ouro sofreu fraturas depois que em uma confraternização reencontrou uma antiga amizade, restabelecendo um link do período de juventude transviada. Passaram a conversar permanentemente, até que combinaram sair para novas festas. As saídas passaram a ser semanais. Tornaram-se confidentes e o núcleo se expandiu, com outras pessoas que possuíam hábitos que condiziam com o seu passado, até que a recaída aconteceu. Uma rodada de gim para descontrair deflagrou o novo ciclo de dependência.
Existem inúmeros fatores que podem provocar o consumo compulsivo de bebida, como os conflitos interpessoais, os estados emocionais negativos, assim como a própria dependência fisiológica, psicológica e a pressão social. Boas companhias são inspiradoras e criam boas perspectivas, enquanto que as companhias com hábitos disfuncionais, são destrutivas, atrasam ou conduzem ao “descaminho”. Isso vale tanto para relações de amizade quanto para relações familiares. Relacionamentos disfuncionais, seja afetivo ou familiar, pode potencializar os riscos dos envolvimento de seus integrantes em relacionamentos permeados por diferentes tipos de violências.
Relacionamentos tóxicos existem em todos os lugares e muitas vezes trazem a falsa sensação de conforto, porque vem temperado de adulação, compartilhamento de vida pessoal ou manipulação dos pontos vulneráveis.
Com Dora, estamos redescobrindo mecanismos para retomar o caminho de volta. Mas é um caminho que só ela pode reconstruir, já que a vida é feita de escolhas e o processo seletivo em nossas relações é um passo importantíssimo. Para começar, relações funcionais é um ótimo remédio.
*Karoline Barbosa é psicóloga formada pelo Instituto Nossa Senhora Auxiliadora (Isecensa), e pós-graduanda em Terapia Cognitivo-comportamental pela PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul)
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