ES – Um relatório detalhado de mais de 150 páginas, ao qual o Diário da Guanabara teve acesso, expõe as entranhas de um sofisticado esquema de corrupção, fraude em licitações e lavagem de dinheiro que teria desviado mais de R$ 26 milhões dos cofres de Presidente Kennedy, município do sul capixaba conhecido por sua arrecadação bilionária de royalties do petróleo.
O documento, que conclui o Inquérito Policial 004/2024, conduzido pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO), não apenas indicia oito pessoas por crimes como associação criminosa e corrupção, mas também acende um alerta: a teia de corrupção pode ser ainda maior, recomendando a abertura de novos inquéritos para aprofundar as investigações. O conteúdo continua em segredo de justiça.
A investigação, batizada internamente de “Operação Chopp” — uma referência ao código usado pelos suspeitos para se referir à propina —, teve início com a denúncia de Welter José da Costa, que se apresentou à polícia como “laranja” da empresa Shark Negócios e Empreendimentos Ltda.
Segundo seu depoimento, ele foi convencido a “emprestar o nome” para a empresa, que, na realidade, seria controlada por um grupo de empresários e contaria com a conivência de servidores públicos para vencer contratos de pavimentação asfáltica.
O que a DRACO descobriu foi um esquema clássico de uso de “testas de ferro” para ocultar os verdadeiros beneficiários. A Shark Negócios, segundo o inquérito, é a sucessora de outras empresas de fachada, como a Lopes do Brasil Construtora Ltda, todas utilizadas para fraudar a competitividade de licitações e desviar recursos públicos. Isso, até acontecer um “racha” no grupo e deflagrar uma disputa interna.
Os servidores e a “taxa de agilidade”
No centro do esquema, segundo a polícia, estavam o fiscal de obras da prefeitura, Carlos Henrique Goulart de Lana, e a servidora Gabriella Ferreira Dias. A investigação, que incluiu a análise de conversas de WhatsApp, aponta que ambos recebiam pagamentos ilícitos para acelerar medições e liberar pagamentos.
Em uma das conversas periciadas, Gabriella pergunta a Carlos: “Depois ver com nosso amigo, se depois que sair lá, ele paga o chopp?”. Para a polícia, “chopp” era o eufemismo para suborno.
O dinheiro da propina, que totalizou mais de R$ 629 mil, era depositado na conta de Gabriel Nazareth de Lana, filho do fiscal, numa tentativa de dissimular a origem e o destino dos valores.
Os líderes ocultos e a teia de empresas
Apesar de Welter e outros figurarem como sócios no papel, o relatório policial aponta que os verdadeiros donos do negócio eram Gilbert Wagner Antunes Lopes, conhecido como “Waguinho”, Samuel de Carvalho Oliveira, Elizeu Siqueira e Leonardo Rios Batista. Eles seriam os “sócios ocultos”, responsáveis por toda a operação financeira e pela articulação com os agentes públicos.
A análise bancária da Shark Negócios revelou uma movimentação de R$ 26.218.131,37 entre novembro de 2022 e abril de 2024. Desse total, mais de R$ 11 milhões vieram diretamente dos cofres da prefeitura de Presidente Kennedy, referentes a dois grandes contratos de pavimentação nos trechos Jaqueira-Santo Eduardo e ES-060-Jaqueira.
Novos inquéritos à vista
Ao concluir o inquérito, o delegado Tarik Halabi Souki indiciou oito pessoas por associação criminosa, corrupção passiva e ativa, falsidade ideológica e crimes contra a ordem tributária. No entanto, o relatório final deixa claro que este é apenas o começo.
O documento ressalta a “necessidade de aprofundamento das investigações” e a possível abertura de novos inquéritos para investigar a participação de outras empresas mencionadas em conversas e documentos, como a Queen Empreendimentos Ltda, Thor Construtora, RDJ Engenharia e IPE Engenharia, que também teriam relações suspeitas com o grupo, assim como outros personagens, como Leonardo Rios, conhecido por Leo Goela, que chegou a ser alvo de busca e apreensão no curso das investigações.
O processo agora está nas mãos do Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que decidirá se oferece denúncia contra os indiciados e se acata a recomendação da polícia para expandir as investigações, prometendo novos capítulos para esta série de reportagens intitulada República dos Royalties.
*Capítulo 5 da série “República dos Royalties” . Compartilhe esta reportagem do Dário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.











