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Um ano de guerra na Ucrânia, e então? 

A disputa entre as grandes potências: EUA e União Europeia, por meio da Otan, buscam a expansão no leste europeu, enquanto a Rússia tenta conter

Redação DGRJ Por Redação DGRJ
03/02/2023 - 19:41
em Opinião
Guerra na Ucrânia: Entenda o que move a disputa entre os EUA, União Europeia e a Rússia.

Imagem: AP Photo / Mindaugas Kulbis - Via Sputnik.

*Por Mateus Dalmáz

Após um ano de guerra da Ucrânia, algumas perguntas emergem: Qual o estágio do conflito? E quais foram mesmo os motivos da invasão russa? Vale a pena relembrar a trama política que levou ao cenário beligerante antes de avaliar a situação atual. 

Desde o final da Guerra Fria, a Rússia vem tentando manter a liderança política e econômica que tradicionalmente exerceu no leste europeu, especialmente nas regiões que pertenceram à União Soviética. Fragilizada economicamente desde os anos 1980, a Rússia assistiu à expansão do Ocidente sobre a região no decorrer das últimas décadas: tanto a União Europeia quanto a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) incorporaram Estados que, no passado, orbitavam na esfera de influência soviética. 

Percebe-se, aqui, uma disputa de poder entre grandes potências: Estados Unidos (via Otan) e União Europeia, de um lado, com interesse em ampliar conexões econômicas, políticas e militares na região; e Rússia, de outro, tentando manter a hegemonia no leste europeu. 

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Em 2014, para dissuadir a Ucrânia de se aproximar da União Europeia, o governo de Vladimir Putin ocupou militarmente a Crimeia (no sul da Ucrânia) e apoiou as independências de Luhansk e Donetsk (no leste), regiões com população russófona. Em 2022 foi a vez da Otan acenar com um convite à Ucrânia para ingresso no pacto militar liderado por Washington. A reação de Putin foi movimentar tropas militares até a Ucrânia, caso a Otan não limitasse a área de atuação no leste europeu. 

Mapa para entender o conflito na Ucrânia
Crédito: Viewsridge/ Reprodução Wikimedia Commons

A resposta do Ocidente foi ameaçar os russos com sanções econômicas. Putin, então, ocupou Luhansk e Donetsk, no Donbass. O Ocidente, assim, impôs sanções econômicas às duas cidades. A Rússia, então, invadiu militarmente territórios para além da região do Donbass, iniciando uma intervenção em larga escala. A reação do Ocidente, desta vez, foi estender as sanções econômicas para a Rússia. Assim foi o mês de fevereiro de 2022. Um ano depois, qual o estágio do conflito?

Tudo indica que a Otan e a União Europeia desejam estender ainda mais a guerra. Por quê? Porque as duas pretensões russas durante o último ano de beligerância têm se revelado gradual e progressivamente não favoráveis a Putin. A primeira delas, que foi dissuadir a expansão da Otan no leste europeu, não apenas não vem se concretizando como também tem tido um efeito contrário: o pacto militar liderado pelos Estados Unidos vem obtendo mais aliados, coesão, contingente e justificativas para seguir existindo, mesmo após o final da Guerra Fria; a segunda pretensão, que foi proteger a população russófona no leste da Ucrânia, tem se mostrado ineficiente, já que a maioria dos mais de 6 mil mortos e 9 mil feridos no conflito é de pessoas da região do Donbass, onde o apoio à causa russa vem se tornando menor. 

Do ponto de vista russo, também há uma tendência de manutenção do conflito. Por quê? Porque, para Putin, a guerra vem servindo de sustentação “ideológica” do governo, que, em nome do esforço bélico, reforça o discurso nacionalista (com apelo à identidade nacional), militarista (com uso de “hard power”, isto é, do poder político, econômico e militar) e expansionista no leste europeu, o espaço geopolítico considerado, pela Rússia, como fundamental para as pretensões do Kremlin de voltar a ser uma superpotência. 

O ônus das sanções econômicas, em parte, vem sendo diluído pela compra do petróleo e do gás natural russo pela China e pela Índia, pela inflação desses produtos na Europa central e pela alta taxa de juros praticada pelo banco central russo.  

A manutenção do conflito também vem sendo a tendência por parte do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, uma vez que a Ucrânia tem solicitado, obtido e aceitado ajuda militar por parte dos membros da Otan: blindados dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Alemanha; mísseis dos Estados Unidos; drones da Turquia.

A participação indireta do Ocidente na guerra tem sido responsável pelo terceiro estágio dos confrontos: no primeiro, de fevereiro a abril de 2022, a Rússia cercou Kiev e bombardeou o norte da Ucrânia; no segundo, de abril a julho de 2022, os ataques russos se concentraram no leste e no sul; no terceiro, desde julho (até o momento), graças ao apoio material da Otan, tem ocorrido uma contraofensiva ucraniana, no nordeste e no sul, razão pela qual a guerra tem se prolongado, sem que Moscou obtenha, de Kiev, a confirmação de que não fará parte das organizações internacionais ocidentais. 

O estágio atual da guerra, então, é de manutenção do estado de beligerância, uma vez que, a longo prazo, o Ocidente deseja desgastar a Rússia, a Ucrânia orbitar no Ocidente, a Rússia manter “status” de grande potência, a China dominar a economia do leste europeu. Enquanto isso, seguem os milhares de mortos e os milhões de refugiados.  

Sobre o autor: Mateus Dalmáz é doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). É professor dos cursos de graduação em Relações Internacionais e em História da Universidade do Vale do Taquari – Univates (Lajeado/RS), onde também é coordenador do curso de Relações Internacionais e do projeto de extensão “Relações Internacionais na Sala de Aula”.

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Tags: #EUA e União Europeia contra a Rússia#Guerra na Ucrânia
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