A polarização política que marcou a eleição presidencial de 2026 também provocou episódios de intimidação entre estudantes. No Distrito Federal, um adolescente de 17 anos passou a receber ameaças de morte de um colega em um grupo de WhatsApp formado por alunos da mesma turma. Com medo de ser agredido, ele deixou de ir à escola e ainda não se sente seguro para retornar.
Identificado pelo nome fictício de Felipe, o jovem foi ameaçado enquanto os votos do segundo turno ainda eram contabilizados e Luiz Inácio Lula da Silva ultrapassava Flávio Bolsonaro na apuração. Antes de enviar as mensagens, o autor questionou o posicionamento político do adolescente e o ofendeu por acreditar que ele havia votado no candidato petista.
Em um dos áudios obtidos pela Agência Brasil, o estudante fez uma ameaça direta: “Eu juro que amanhã se você for para a escola você não volta vivo”. Em outras mensagens, afirmou que espancaria outros cinco colegas caso Flávio Bolsonaro perdesse a eleição e acrescentou que faria isso “só na faca”.
As publicações também receberam reações de outro adolescente, que utilizou curtidas e figurinhas de risadas. Além das ameaças de violência física, o autor das mensagens enviou manifestações de intolerância religiosa contra os estudantes.
Medo de novas agressões afastou jovem da escola
Felipe é um adolescente transgênero. Segundo sua mãe, identificada pelo nome fictício de Aline, ele nunca havia enfrentado episódios de transfobia na instituição de ensino. A família, portanto, não esperava que divergências políticas provocassem manifestações tão graves de hostilidade.
Para Aline, o comportamento dos adolescentes também reflete a intolerância presente no debate público. Ela avalia que a dificuldade de alguns adultos em respeitar opiniões diferentes pode contribuir para que os mais jovens reproduzam atitudes agressivas.
Depois das ameaças, Felipe passou uma semana inteira sem comparecer às aulas. Mesmo após esse período, continua com receio de voltar à escola e encontrar o colega responsável pelas mensagens.
A família ainda não registrou boletim de ocorrência. De acordo com a mãe, a decisão está relacionada ao medo de expor o adolescente e de que ele sofra novas represálias.
Aline relatou que a direção da escola informou ter transferido o estudante apontado como autor das ameaças para outra unidade. Já o aluno que demonstrou apoio às mensagens recebeu uma suspensão de quatro dias.
Intolerância política também atinge outras escolas
O episódio no Distrito Federal não é isolado. Outros relatos envolvendo crianças e adolescentes mostram como divergências políticas podem se transformar em provocações, ofensas, intimidações e até agressões dentro do ambiente escolar.
Um caso que ganhou repercussão ocorreu em Potirendaba, no interior de São Paulo. Na ocasião, uma professora afirmou em sala de aula que pessoas pardas, negras e pobres seriam mortas em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Após a divulgação das declarações e a repercussão do episódio, a profissional foi afastada do cargo.
As situações levantam preocupações sobre os efeitos da polarização política nas relações entre estudantes e sobre a necessidade de as escolas oferecerem ambientes seguros para crianças e adolescentes, independentemente das opiniões políticas de suas famílias.
No caso de Felipe, as ameaças ultrapassaram o campo das discussões e afetaram diretamente sua rotina. O adolescente permanece afastado das aulas por medo de sofrer violência, enquanto a família enfrenta a preocupação de garantir sua segurança e seu direito à educação.
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