A indústria argentina atravessa um período de forte pressão desde o início do governo de Javier Milei. A abertura comercial adotada pela administração, somada à queda do consumo interno e à dificuldade de competir com produtos importados, vem afetando fábricas de diferentes setores.
Um levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo aponta que quase 30 mil empresas fecharam as portas entre 2023 e 2026, enquanto o setor industrial perdeu aproximadamente 90 mil postos de trabalho no período. A produção manufatureira também registrou retração recente, com queda de 5% entre junho e julho, a maior em 16 meses.
Um dos exemplos é a fabricante de calçados Kioshi, instalada em Esteban Echeverría, na região metropolitana de Buenos Aires. A empresa chegou a ter 120 funcionários em 2023, mas atualmente mantém apenas 14 trabalhadores. A produção também caiu para cerca de um quarto do volume registrado anteriormente.
O diretor da companhia, Emmanuel Fernández, relaciona parte das dificuldades à redução da demanda. Com o consumo das famílias ainda pressionado, empresas que dependem do mercado doméstico encontram mais obstáculos para manter o ritmo de vendas.
Produtos importados ganham espaço
A mudança na política comercial argentina ampliou a presença de produtos estrangeiros no mercado. Para representantes da indústria, a combinação entre importações, custos internos elevados e valorização do peso reduziu a margem de competitividade das empresas nacionais.
A União Industrial Argentina (UIA) vem manifestando preocupação com a recuperação da atividade, a queda do emprego e os custos tributários, financeiros, logísticos e trabalhistas enfrentados pelas empresas. Em setembro, a entidade voltou a discutir medidas relacionadas à pressão tributária, aos custos de energia e às dificuldades de financiamento das pequenas e médias indústrias.
A própria entidade afirma que a indústria enfrenta dificuldades para recuperar a atividade. Dados publicados pela UIA mostram que o emprego industrial registrado continuava em queda em 2026, com redução de 3.157 trabalhadores apenas entre abril e maio.
Fechamento de fábricas afeta trabalhadores
Os efeitos da retração aparecem também em empresas que atuam há décadas no país. Em Zárate, por exemplo, a multinacional suíça Clariant encerrou em 2025 as atividades de uma fábrica de produtos químicos que funcionava havia cerca de 50 anos.
Entre os funcionários dispensados estava Miguel Márquez, que trabalhou durante duas décadas na empresa. Segundo relato publicado pelo g1 e reproduzido no levantamento da Folha, apenas dois dos 42 trabalhadores demitidos conseguiram posteriormente um emprego formal. Aos 62 anos, Márquez passou a trabalhar como motorista de aplicativo.
Outro caso citado é o da fabricante de instrumentos musicais Martin Blust, em Buenos Aires. A empresa, fundada em 1952, atualmente emprega apenas dez pessoas e chegou a reduzir sua operação diante da queda nas encomendas.
Os relatos ilustram uma dificuldade apontada por empresários: a desaceleração da inflação não significa necessariamente uma recuperação imediata da demanda.
Governo defende abertura da economia
O governo Milei mantém a defesa de uma economia mais aberta e da redução de barreiras à entrada de produtos estrangeiros. A equipe econômica argumenta que a concorrência pode beneficiar os consumidores ao ampliar a oferta e permitir o acesso a produtos com preços menores.
O ministro da Economia, Luis Caputo, rebate as críticas de representantes industriais e afirma que a política econômica também precisa considerar os consumidores, e não somente os fabricantes nacionais.
Do outro lado, empresários defendem que a concorrência precisa ocorrer em condições consideradas mais equilibradas. Entre os fatores citados pelo setor estão o câmbio, os juros, os impostos e os custos de produção.
A UIA tem defendido medidas para melhorar a competitividade da indústria e preservar empregos durante o processo de adaptação ao novo cenário econômico. Em fevereiro, a entidade apresentou ao governo propostas voltadas à recuperação da atividade, manutenção do emprego e melhoria das condições de competitividade.
Economia argentina voltou a crescer
Apesar das dificuldades da indústria, os indicadores gerais da economia argentina mostram uma recuperação em relação ao período de forte crise registrado no início do governo Milei.
Segundo o Banco Mundial, o Produto Interno Bruto da Argentina cresceu 4,4% em 2025. Para 2026, a instituição projeta expansão de 3,6%, associada à estabilização macroeconômica, aos investimentos no setor energético e ao desempenho do agronegócio.
A inflação também desacelerou de forma significativa. O Banco Mundial afirma que a taxa mensal, que havia ultrapassado 20% no fim de 2023, caiu posteriormente para uma faixa de aproximadamente 2,5% a 3% ao mês.
O crescimento, porém, não é distribuído igualmente entre todos os segmentos. Enquanto energia, mineração e agronegócio apresentam desempenho positivo, parte da indústria manufatureira enfrenta queda nas vendas e maior concorrência de produtos estrangeiros.
Peso valorizado divide opiniões
O comportamento da moeda argentina é outro ponto importante do debate. Um peso mais valorizado pode contribuir para reduzir os preços de produtos importados e ajudar no controle da inflação. Ao mesmo tempo, pode dificultar a competição das empresas argentinas tanto no mercado interno quanto nas exportações.
Para empresários, a combinação entre câmbio, juros e custos domésticos pode tornar a produção nacional mais cara em comparação com mercadorias importadas, especialmente as provenientes da China.
O governo, por sua vez, aposta que a maior exposição à concorrência internacional poderá estimular mudanças na estrutura produtiva argentina e aumentar a eficiência das empresas ao longo do tempo.
O cenário, portanto, reúne indicadores de recuperação econômica e problemas concentrados em determinados setores. A Argentina conseguiu reduzir a inflação e voltou a registrar crescimento do PIB, mas parte da indústria ainda enfrenta queda na atividade, fechamento de empresas e perda de empregos.
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