A três semanas do primeiro turno das eleições, organizações da sociedade civil cobram mais espaço para propostas capazes de definir os rumos do país nos próximos anos.
Emprego, educação, ciência, mudanças climáticas, desenvolvimento econômico e soberania estão entre os assuntos apontados como essenciais, mas que acabaram dividindo a atenção com a crise institucional que tomou conta do debate político nas últimas semanas.
Os conflitos envolvendo integrantes do Supremo Tribunal Federal e os desdobramentos das investigações relacionadas ao Banco Master passaram a ocupar espaço expressivo no noticiário, nas redes sociais e nos discursos eleitorais.
Para representantes de diferentes entidades, as suspeitas precisam ser investigadas com transparência e respeito ao devido processo legal. A preocupação, porém, é que a sucessão de novos episódios transforme a crise no principal assunto da campanha e deixe em segundo plano a comparação entre propostas e programas de governo.
Debate eleitoral vai além da crise institucional
A presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, avalia que a concentração do debate nos conflitos entre instituições pode prejudicar a discussão sobre os projetos apresentados aos eleitores.
A avaliação não significa ignorar os fatos que vieram à tona com os desdobramentos da Operação Compliance Zero, iniciada pela Polícia Federal em novembro de 2025 e relacionada às investigações sobre o Banco Master e seu ex-controlador, Daniel Vorcaro.
O ponto defendido pelas entidades é que a apuração das suspeitas deve ocorrer paralelamente ao debate sobre políticas públicas e desafios que permanecerão no país depois das eleições.
Ciência cobra planejamento de longo prazo
A presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, está entre as representantes que defendem maior presença de temas estruturais na campanha.
A entidade tem chamado atenção para a necessidade de discutir financiamento permanente da ciência, inovação, formação de pesquisadores, desenvolvimento tecnológico e segurança para políticas que dependem de planejamento de longo prazo.
A SBPC criou neste ano o Observatório das Eleições 2026 e reuniu 117 propostas sobre temas como ciência e tecnologia, soberania, sustentabilidade, clima, educação, saúde e democracia.
Educação e desenvolvimento entram na cobrança
O coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, também defende que os candidatos sejam cobrados sobre questões que ultrapassam o período eleitoral.
Entre os assuntos considerados estratégicos estão a qualidade da educação, o financiamento das políticas públicas, ciência e tecnologia, desenvolvimento econômico, soberania e defesa nacional.
A avaliação é que esses temas precisam aparecer de maneira mais clara nos projetos apresentados por candidatos ao Executivo e ao Legislativo, permitindo ao eleitor avaliar não apenas posicionamentos sobre a crise do momento, mas também as propostas para os próximos anos.
Trabalho e renda preocupam entidades
No campo trabalhista, as reivindicações incluem geração de emprego, valorização da renda, mudanças na jornada de trabalho e fortalecimento da negociação coletiva.
A presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Rita Serrano, destaca ainda a discussão sobre o fim da escala 6×1, tema que ganhou força entre trabalhadores e também chegou ao Congresso Nacional.
Segurança pública e condições de trabalho também aparecem entre os assuntos considerados prioritários.
Crise climática cobra respostas dos candidatos
Outro tema apontado como insuficientemente presente no debate eleitoral é a emergência climática.
Enchentes, secas, ondas de calor, incêndios e outros eventos extremos já provocam consequências diretas para cidades, produção agrícola, infraestrutura e orçamento público.
Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, o enfrentamento da crise ambiental precisa ocupar posição mais relevante nas propostas dos candidatos.
Além dos impactos sobre a população, desastres climáticos obrigam governos a ampliar gastos com socorro às vítimas, reconstrução de estradas e cidades, recuperação de serviços públicos e apoio a setores produtivos atingidos.
Minerais críticos entram na agenda de soberania
A exploração de minerais críticos e terras raras também ganhou importância estratégica neste ano.
O Congresso aprovou o projeto que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, proposta que prevê incentivos para processamento e transformação desses recursos no Brasil e aguarda sanção presidencial.
O setor é considerado fundamental para cadeias industriais ligadas à transição energética, produção de equipamentos eletrônicos, veículos elétricos e tecnologias avançadas.
Ao mesmo tempo, organizações sociais e representantes de povos indígenas cobram garantias ambientais, respeito aos territórios e consulta às comunidades que possam ser atingidas por novos projetos de mineração.
Indígenas ampliam participação eleitoral
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) também decidiu fortalecer sua participação direta nas eleições.
A chamada Bancada Indígena 2026 reúne 56 candidaturas apoiadas pela articulação, distribuídas entre disputas para deputado estadual, deputado federal, Senado, governo estadual e suplência.
A estratégia busca aumentar a presença dos povos originários nos espaços institucionais e ampliar a discussão sobre demarcação de terras, saúde, educação, meio ambiente e proteção dos territórios.
Eleitor precisa conhecer projetos de país
Mesmo representando setores diferentes, as entidades convergem em um ponto: a crise envolvendo instituições públicas precisa ser esclarecida, mas não deveria consumir todo o espaço da campanha.
Com a aproximação das urnas, a cobrança é para que candidatos apresentem de maneira mais clara como pretendem enfrentar problemas relacionados a emprego, renda, educação, ciência, tecnologia, segurança, mudanças climáticas e desenvolvimento.
Para essas organizações, o debate eleitoral ganha qualidade quando permite ao cidadão comparar diferentes projetos de país, e não apenas acompanhar as disputas e crises que dominam o noticiário do momento.
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