Um carro de luxo localizado na residência de Rodrigo Bacellar e a utilização de uma aeronave particular por uma integrante da família do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro passaram a integrar a investigação da Polícia Federal sobre uma possível aproximação entre o político e empresas associadas ao grupo de Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho.
Os episódios são apresentados pela PF como parte de um conjunto de indícios, mas não representam, isoladamente, comprovação de recebimento de vantagem indevida. As conclusões da investigação ainda dependem da análise da Justiça e do exercício do contraditório pelas defesas.
Mercedes foi encontrada em residência de Teresópolis
Um dos principais elementos mencionados no relatório é uma Mercedes-Benz GLE 400 blindada. O veículo foi encontrado na garagem da residência de Bacellar, em Teresópolis, na Região Serrana, durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão em dezembro de 2025.
Segundo o documento, o caseiro da propriedade informou aos agentes que o automóvel era utilizado pela residência. A consulta aos registros do Departamento Estadual de Trânsito, no entanto, indicou que o veículo estava registrado em nome da Race Car Automóveis.
A empresa pertencia, naquele período, ao filho do empresário Marcos Alexandre Barros Rodrigues. De acordo com a linha investigativa da PF, negócios vinculados ao empresário teriam sido utilizados pelo grupo de Adilsinho para movimentar recursos e financiar agentes políticos.
Os investigadores também destacaram uma alteração realizada posteriormente no quadro societário da empresa proprietária da Mercedes. Para a PF, a mudança pode ter sido promovida para dificultar a identificação do vínculo entre o veículo e os integrantes do grupo investigado. Essa interpretação ainda será submetida à avaliação judicial e contestada pelas partes envolvidas.
Uso de aeronave também entrou na apuração
Outro ponto do relatório trata do uso de aeronaves particulares por integrantes da família de Bacellar. A investigação cita uma viagem feita pela esposa do ex-presidente da Alerj em um avião pertencente à empresa GPC Soluções em Saúde.
Conforme os dados apresentados pela PF, o voo partiu do Aeroporto de Jacarepaguá, na capital fluminense, com destino a Campos dos Goytacazes. A aeronave retornou no mesmo dia, com pouso no Aeroporto Santos Dumont.
Os investigadores afirmam que o avião não possuía autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para realizar serviço remunerado de táxi aéreo. A cessão da aeronave passou a ser analisada como possível benefício econômico disponibilizado à família do político.
Empresa teve contratos com a Fundação Saúde
A GPC Soluções em Saúde manteve três contratos com a Fundação Saúde do Estado do Rio de Janeiro, que somavam mais de R$ 60 milhões. O relatório citado pelas reportagens afirma que as contratações ocorreram por dispensa de licitação.
A empresa apresentou uma versão diferente. Em manifestação divulgada à imprensa, declarou que os contratos foram obtidos em processos públicos vencidos pelo menor preço, negou qualquer favorecimento e informou que não possui vínculo ativo com o governo estadual.
A Fundação Saúde confirmou que o último contrato mantido com a GPC foi encerrado em março de 2026.
PF investiga possível ocultação de benefício
Na avaliação dos investigadores, a disponibilização de um veículo blindado e de uma aeronave particular por empresas relacionadas a pessoas investigadas pode representar indício de ocultação de benefício econômico, conflito de interesses ou eventual vantagem indevida.
A PF procura saber se os bens e serviços foram cedidos gratuitamente ou em condições diferentes das praticadas no mercado e se houve alguma contrapartida política ou administrativa. Até o momento, os elementos divulgados integram uma investigação em andamento e não constituem condenação.
Quinta fase ampliou investigação
A quinta fase da Operação Unha e Carne foi deflagrada em 2 de julho. A ação aprofundou a apuração sobre suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas à cúpula do jogo do bicho e uma eventual presença do esquema nos poderes Executivo e Legislativo do Rio de Janeiro.
A nova etapa teve origem na análise de planilhas apreendidas com Adilsinho. Segundo a PF, os documentos apresentavam referências a supostos pagamentos, doações eleitorais e movimentações financeiras atribuídas a agentes políticos. Bacellar, Adilsinho e o pastor e empresário Márcio Poncio estavam entre os principais alvos da fase.
Defesas contestam as suspeitas
A defesa de Rodrigo Bacellar afirma que o ex-presidente da Alerj não possui ligação com os fatos investigados e sustenta que a instrução processual demonstrará sua inocência.
Os advogados também alegam que não receberam acesso integral aos documentos relacionados à quinta fase da operação. Segundo a defesa, a falta de acesso dificulta a apresentação de esclarecimentos específicos sobre o carro e a aeronave.
A defesa de Adilsinho nega que ele tenha relação com as gráficas e empresas mencionadas no relatório e afirma que o investigado nunca realizou pagamentos a políticos ou agentes públicos. A GPC também declarou não ter sido formalmente comunicada de acusações relacionadas ao uso do avião e disse permanecer à disposição das autoridades.
Comentário no Direto da Redação pede cautela
Durante o programa Direto da Redação, o caso foi analisado com ressalvas sobre a necessidade de separar relações comerciais legítimas de possíveis vínculos criminosos.
O comentário destacou que a utilização de produtos ou serviços prestados por uma empresa posteriormente associada a um investigado não comprova automaticamente a participação do cliente em atividades ilegais. Para que haja responsabilização, seria necessário demonstrar o conhecimento sobre o esquema, a existência de benefício indevido ou alguma contrapartida.
Também foi criticada a formação de julgamentos antecipados a partir de vazamentos de trechos de relatórios policiais. A avaliação apresentada no programa defendeu o respeito à presunção de inocência, ao direito de defesa e ao acesso dos advogados aos elementos utilizados contra o investigado.
A posição não afasta a necessidade de apuração, mas cobra que as suspeitas sejam examinadas dentro do processo judicial, com transparência, provas verificáveis e oportunidade de manifestação para todas as partes.
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