O fenômeno da pós-verdade descreve um cenário em que fatos objetivos passam a exercer menos influência na formação da opinião pública do que crenças pessoais, emoções e narrativas com as quais os indivíduos se identificam.
Embora o termo tenha surgido ainda na década de 1990, ele ganhou projeção global a partir de 2016, especialmente durante o processo eleitoral nos Estados Unidos que resultou na eleição de Donald Trump.
Naquele período, o conceito foi amplamente difundido e chegou a ser eleito palavra do ano pelo dicionário Oxford.
Com o avanço das redes sociais e da comunicação digital, o debate sobre desinformação e fake news passou a ocupar posição central nas discussões sobre o ambiente informacional contemporâneo.
Segundo o cientista social Leonardo Nascimento, coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da Universidade Federal da Bahia, esse processo se intensificou nos últimos anos, especialmente após a pandemia, quando a circulação de informações se tornou mais rápida e fragmentada.
O pesquisador afirma que uma das principais características da pós-verdade é a crença na existência de “verdades ocultas”, supostamente escondidas por instituições como imprensa, ciência e órgãos públicos. Esse mecanismo favorece interpretações conspiratórias e reduz a confiança em fontes tradicionais de informação.
De acordo com Nascimento, as transformações provocadas pelas tecnologias digitais alteraram profundamente a forma como as pessoas consomem informação e constroem suas percepções de realidade.
Nesse contexto, a dinâmica das redes sociais influencia diretamente a relação entre verdade, conhecimento e confiança institucional, enfraquecendo referências como o jornalismo e a ciência.
Alguns estudiosos também utilizam o conceito de “pós-mentira” para descrever a continuidade da disseminação de informações falsas mesmo após sua desmentida, o que evidencia a complexidade do problema da desinformação.
Para o pesquisador, o cenário atual exige uma reflexão mais ampla sobre o papel das plataformas digitais e sobre os mecanismos de circulação de conteúdo na sociedade contemporânea.
Ele defende o fortalecimento de instrumentos coletivos de proteção institucional, além da ampliação da capacidade crítica dos usuários diante das informações consumidas nas redes sociais.
Nascimento também alerta que, sem adaptação social e regulatória, há risco de enfraquecimento progressivo de instituições fundamentais, como ciência, política e mídia, em meio ao avanço da desinformação.
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