O ex-presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, admite sua responsabilidade “compartilhada” pela queda do país nas mãos do Talibã. Ele assumiu a culpa por confiar nos EUA, enquanto as forças de ocupação norte-americana negociavam um acordo com o grupo militante que provocou sua expulsão do poder.
“É preciso assumir a responsabilidade de confiar em um parceiro que pisoteou nossa soberania e impôs a libertação de 5.000 prisioneiros [talibãs], entre eles, os maiores traficantes da história da região”, disse Ghani em entrevista veiculada na emissora estatal norte-americana, Public Broadcasting Service (PBS).
“A responsabilidade é compartilhada, e onde eu assumo a responsabilidade por ter confiado em nosso parceiro-chave que assinou nosso acordo de retirada – e por um ano inteiro – suas forças (dos EUA) não foram atacadas pelo Talibã, mas nossas forças pagaram o preço mais alto”, enfatizou o ex-presidente, referindo-se ao acordo de Washington com o grupo militante de não atacar as forças de ocupação dos EUA e aliados em todo o Afeganistão, deixando-os livres para travar ataques terroristas contra as forças do governo afegão, inclusive civis.
O acordo – conhecido como o acordo de Doha assinado entre a administração do ex-presidente dos EUA Donald Trump e o Talibã – não envolveu o governo oficial afegão, e estipulou uma data para a retirada total das forças americanas do Afeganistão, forçando o governo Ghani, patrocinado por Washington, a libertar 5.000 prisioneiros talibãs.
Ghani também criticou o acordo EUA-Talibã, insistindo que as “suposições de Washington sobre o Talibã eram altamente falhas” e “baseadas em pensamentos temerários”.
Ele destacou que a elaboração e implementação do pacto “entrará para a história como um dos piores acordos já concluídos”.
“Os EUA apoiaram o Talibã… A administração Trump — sem o papel do governo Trump, o Talibã não estaria aqui hoje”, sublinhou o ex-presidente afegão, que atualmente vive exilado.
Ghani passou a responsabilizar Washington por estabelecer o que ele descreveu como “sistemas de falsas garantias”, dizendo: “Estávamos certos de que um cessar-fogo ocorreria e as negociações políticas sobre o futuro governo seriam uma parte indispensável do acordo, e isso não aconteceu”, disse.
Um avião C-17A da Força Aérea dos EUA 🇺🇲 partindo de Cabul lotado de afegãos, que fogem do Afeganistão 🇦🇫 governado pelo Talibã. “O medo do primeiro voo da minha vida e a alegria da salvação”. pic.twitter.com/t3W7lBbBCU
— Fotos de Fatos (@FotosDeFatos) August 29, 2021
O ex-mandatário culpou sucessivas administrações dos EUA e seus agentes e empreiteiros no Afeganistão pela corrupção generalizada e crescente em toda a sua empobrecida nação asiática.
“De onde começou a corrupção?”, perguntou ele. “Começou com a compra dos senhores da guerra pela administração Bush. A escala da corrupção no Afeganistão é uma confluência entre seus novos barões, que representam empreiteiros da Beltway, e empreiteiros industriais militares, e novos e velhos senhores da guerra afegãos.”
“Minha agenda era lidar com essa corrupção e contê-la”, afirmou, descrevendo-a como “um câncer”.
“Mas, simultaneamente, você precisa ver nossos sacrifícios. Estávamos perdendo entre 200 e 400 soldados e oficiais por dia”, observou Ghani. “Chega um momento em que até o aço tem um ponto de estalo, e esse é o ponto que chegou, porque as cidades e as províncias onde muitos combates ocorreram não poderiam receber apoio sustentado”, afirma.
O ex-líder afegão ainda acusou Washington e a aliança militar liderada pelos EUA de não aderir à data de retirada prometida de 2024, sugerindo que sua retirada precipitada contribuiu para a incapacidade de seu governo de planejar melhor as medidas de segurança.
“Precisamos entender que 20 anos de engajamento foram construindo sistemas baseados nas instalações da partida de 2024”, apontou. “Houve uma data acordada com a OTAN e com a comunidade internacional. Era 2024.”
“A chave era a previsibilidade”, insistiu Ghani. “Se os EUA tivessem decidido nos dizer em janeiro de 2019 que se retirarão até 2021, teríamos sido capazes de planejar.”
Início da ocupação desastrada
Os EUA invadiram o Afeganistão em outubro de 2001 após os ataques terroristas de 11 de setembro do mesmo ano nos Estados Unidos. O ex-presidente lembra que o país foi invadido mesmo diante do fato de que nenhum cidadão afegão estava envolvido nos ataques. Contudo, centenas de milhares de afegãos foram mortos como resultado da guerra de agressão dos EUA no país.
As forças americanas ficaram por cerca de duas décadas sob o pretexto da chamada “Guerra ao Terror”. Mas, em agosto do ano passado, quando as forças americanas deixaram o Afeganistão, o Talibã invadiu a capital, Cabul, encontrando um país enfraquecido pela ocupação estrangeira contínua.
O Talibã assumiu a capital em 8 de agosto de 2021, e declarou que a guerra no Afeganistão havia acabado. Os militantes entraram no palácio presidencial depois que Ghani fugiu do país.
Os EUA foram forçados a fechar sua enorme embaixada em Cabul e a evacuar diplomatas e funcionários com uso de helicópteros.
*Da Agência VIU! com Presstv. Leia e compartilhe as notícias do Diário da Guanabara.












