A ideologia do desenvolvimentismo é antiga. A primeira vez em que este termo foi citado reporta a data de 20 de janeiro de 1949, no discurso de posse do presidente americano H. Truman – da potência militar e econômica do planeta.
Ao desenhar sua política externa, o então dirigente norte-americano reafirmou o Plano Marshall para a Europa e um novo e desafiante programa para tornar possível o atingimento dos avanços do progresso industrial do mundo desenvolvido para melhorar e fazer crescer as áreas subdesenvolvidas.
Com Fernando Henrique Cardoso na academia e na Presidência da República, ganharia corpo a tese de que seria possível conciliar dependência, desenvolvimento, bem-estar social e democracia, discurso aliás que ainda sobrevive como substrato dos discursos de uma parte da esquerda brasileira, que pleiteia um novo ciclo de “governos progressistas” no Brasil, e citando ainda, que tal tendência ganha força na América Latina.
Qual é o sonho de consumo da grande burguesia nativa? Uma política econômica com financiamento subsidiado pelo BNDES, juros reais suportáveis, salários contidos, câmbio moderado e protecionismo compensatório nas compras do Estado e das empresas públicas remanescentes, bem como uma política social focalizada (não universal). Hoje a chapa centrista Lula-Alckmin encarna essa proposta social-liberal e conta com apoio da esquerda reformista brasileira. Falta apenas, acomodar o capital rentista no jogo.
O dilema é que a América Latina se encontra, no tempo, presente em pleno processo de reversão produtiva e os sonhos de um desenvolvimento associado, como a chapa petista advoga, liderado pelas empresas multinacionais e secundada pelas nacionais, talvez resulte no aprofundamento do pesadelo da desindustrialização brasileira.
Basta constatar que a especialização regressiva na divisão internacional do trabalho impulsiona uma economia primária exportadora predatória dos recursos naturais.
Um reformismo liberal parece fadado a manter inacessível ao povão o acesso às maravilhas do progresso, disponíveis no Primeiro Mundo. Resta a força bruta militar para reprimir as justas reivindicações populares e as tensões sociais delas decorrentes.
Hoje predomina uma burguesia vassala, que perde progressivamente a capacidade do seu tempo histórico, mediante uma total impotência da elite econômica para evitar uma posição ainda mais rebaixada na divisão internacional do trabalho, e assim tornando quase impossível conciliar acumulação de capital, elevação do nível tradicional de vida da maioria, soberania nacional e democracia.
Diante dessa realidade, prometer “cerveja e picanha” pode se revelar uma plataforma com variadas dificuldades de se consolidar nesses tempos de crise internacional aguda. Cruzemos os dedos!
*Ranulfo Vidigal é economista e escreve regularmente para o Diário da Guanabara. Leia e compartilhe.












