O WhatsApp se tornou um dos principais meios utilizados em casos de assédio eleitoral nas relações de trabalho. Levantamento do Centro de Pesquisas Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho aponta que o aplicativo aparece em quase 40% dos processos analisados sobre pressão política contra trabalhadores.
A pesquisa examinou cerca de 140 ações ajuizadas até dezembro do ano passado. Além do WhatsApp, também foram identificados casos envolvendo redes sociais, e-mails, comunicados internos e outros canais usados para tentar influenciar ou constranger empregados por causa de posicionamentos políticos.
Segundo o estudo, esse tipo de pressão não fica restrito ao ambiente da empresa. O uso de mensagens digitais permite que o contato continue fora do horário de expediente e alcance também a rotina pessoal e familiar do trabalhador.
Ameaças e pressão sobre o emprego
Entre as situações encontradas nos processos estão discursos intimidadores, convocação obrigatória para atos, chantagens psicológicas e ameaças relacionadas à permanência no emprego.
O assédio eleitoral pode ocorrer quando um empregador, chefe ou colega tenta interferir na liberdade de escolha política de outra pessoa dentro de uma relação de trabalho.
A Justiça do Trabalho considera diferentes formas dessa prática.
O assédio pode ser vertical, quando a pressão parte de superiores hierárquicos; horizontal, quando ocorre entre colegas; misto, quando empregados ajudam a reproduzir a pressão exercida pela chefia; ou institucional, quando a conduta passa a fazer parte das práticas da própria organização.
Trabalhadores iniciaram maioria das ações
Quase 90% dos processos examinados no levantamento foram apresentados pelos próprios trabalhadores.
Uma parcela menor teve origem em ações propostas pelo Ministério Público do Trabalho.
Os números mostram que grande parte das denúncias chega à Justiça por iniciativa direta de quem afirma ter sofrido pressão ou constrangimento político no ambiente profissional.
Mensagens podem servir como prova
Registros digitais podem ter papel importante na apuração desses episódios.
Conversas de WhatsApp, e-mails, áudios, documentos e depoimentos de testemunhas podem ser considerados em conjunto durante a análise de uma ação.
Nos casos em que o assédio não foi reconhecido, uma das dificuldades identificadas foi justamente a falta de elementos capazes de demonstrar como a conduta ocorreu.
Isso acontece principalmente quando a pressão é feita de maneira indireta, sem registros claros ou testemunhas.
Mais de 800 processos desde 2023
Entre maio de 2023 e setembro de 2026, mais de 800 processos relacionados a assédio eleitoral chegaram à Justiça do Trabalho. Somente neste ano, foram registradas 189 ações.
O Conselho Superior da Justiça do Trabalho também atualizou em 2026 as regras relacionadas ao tratamento desse tipo de processo e incorporou um protocolo específico para orientar magistrados na análise dos casos.
As medidas buscam reforçar a proteção à liberdade de consciência e de voto no ambiente profissional, além de estabelecer procedimentos para o acompanhamento das ações envolvendo assédio eleitoral.
Meta não comentou levantamento
Procurada sobre a presença do WhatsApp nos processos analisados, a Meta, responsável pelo aplicativo, informou que não comentaria o levantamento.
A discussão ganha peso às vésperas das Eleições 2026, quando cresce a circulação de mensagens políticas dentro e fora das empresas. A orientação da Justiça do Trabalho é que o vínculo profissional não seja utilizado como instrumento para constranger ou interferir na liberdade de escolha eleitoral dos trabalhadores.
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