A quantidade de informações pessoais armazenadas por empresas brasileiras continua alta, mas a estrutura criada para proteger esses dados ainda avança lentamente. É o que mostra uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (31) pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação).
Segundo o levantamento, aproximadamente sete em cada dez empresas guardam informações de seus clientes. Entre os dados mantidos pelas organizações estão informações biométricas, como impressões digitais. A pesquisa também identificou que 9% das empresas armazenam dados de pessoas com menos de 18 anos.
Apesar desse volume de informações, apenas 20% das empresas afirmam ter uma equipe ou área específica responsável pela proteção de dados pessoais. O percentual é ainda menor quando se considera a existência de um profissional encarregado diretamente dessa função: apenas 16% das organizações possuem esse responsável.
Cenário muda pouco desde 2021
Os números mostram que a estrutura de proteção de dados praticamente não avançou desde 2021, quando a pesquisa começou a acompanhar o tema.
Para Leonardo Lins, coordenador do levantamento com empresas, ainda existem dificuldades na maneira como as organizações administram o caminho percorrido pelas informações pessoais dentro das próprias estruturas.
A preocupação com o cumprimento das exigências legais existe, mas, segundo o pesquisador, é necessário transformar essa preocupação em práticas internas mais consistentes de proteção.
A presença de profissionais encarregados dos dados continua concentrada principalmente nas grandes empresas e nas organizações ligadas ao setor de tecnologia da informação e comunicação.
Cerca de 45 milhões relatam tentativa de golpe
Enquanto as empresas ainda ampliam suas estruturas de segurança, os usuários continuam enfrentando tentativas de fraude na internet.
A pesquisa aponta que cerca de um terço dos brasileiros com mais de 16 anos relatou ter sido alvo de alguma tentativa de golpe. O percentual corresponde a aproximadamente 45 milhões de pessoas.
Os criminosos utilizam principalmente aplicativos de mensagens, como WhatsApp e Telegram, além de ligações telefônicas para tentar convencer as vítimas a fornecer informações ou realizar transferências.
Para Winston Oyadomari, coordenador da pesquisa, os dados mostram a importância de ampliar a educação digital.
Segundo ele, pessoas com menor nível de escolaridade relatam com mais frequência problemas relacionados à perda de acesso a contas e prejuízos financeiros provocados por fraudes.
O pesquisador destaca que combater os golpes não depende apenas de sistemas de segurança. Também é necessário ajudar os usuários a reconhecer situações de risco e desenvolver hábitos mais seguros no ambiente digital.
Inteligência artificial aumenta dúvidas sobre privacidade
O crescimento das ferramentas de inteligência artificial generativa trouxe uma nova preocupação para o debate sobre proteção de dados.
Plataformas como ChatGPT e DeepSeek já são utilizadas por muitos brasileiros, mas ainda existem dúvidas sobre o que acontece com as informações fornecidas pelos usuários durante a interação com esses sistemas.
Manuela Ribeiro, coordenadora de projetos de pesquisa do Cetic.br, afirma que tanto a população quanto as organizações precisam entender melhor como os dados são utilizados pelas ferramentas de inteligência artificial.
A pesquisadora defende que usuários sejam orientados sobre os riscos relacionados ao compartilhamento de informações pessoais e que empresas e órgãos públicos também sejam acompanhados para garantir que a adoção dessas tecnologias respeite os direitos dos indivíduos.
A preocupação já aparece entre os próprios usuários. Entre as pessoas que utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa, 66% afirmam estar preocupadas com a forma como seus dados pessoais podem ser utilizados pelas empresas responsáveis pelas plataformas.
Proteção ainda é um desafio
Os resultados mostram um cenário em que a quantidade de dados pessoais armazenados pelas empresas é muito maior do que a estrutura criada para protegê-los.
Ao mesmo tempo, milhões de brasileiros continuam expostos a tentativas de golpes e uma parcela significativa dos usuários demonstra preocupação com o uso de seus dados por ferramentas de inteligência artificial.
Para especialistas, o cenário reforça a necessidade de combinar investimentos em segurança, profissionais especializados e educação digital. A proteção das informações pessoais, portanto, não depende apenas de tecnologia, mas também da preparação das empresas e dos próprios usuários para lidar com os riscos do ambiente digital.
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