A corrida pela inteligência artificial está criando um novo desafio nos Estados Unidos: encontrar energia suficiente para manter os grandes centros de processamento de dados em funcionamento. Com a demanda por eletricidade crescendo rapidamente e as conexões à rede convencional demorando anos, empresas começaram a apostar em uma alternativa pouco comum: reaproveitar motores de aviões aposentados para gerar energia.
A estratégia foi apresentada pelo jornal The New York Times. De acordo com a publicação, companhias especializadas estão retirando turbinas de aeronaves antigas e adaptando os equipamentos para funcionar como geradores elétricos. A solução tem atraído principalmente empresas que precisam colocar data centers em operação sem esperar pela conclusão de obras de infraestrutura energética.
Um dos principais motivos para essa escolha é o tempo de instalação. Segundo Audun Martinsen, analista da consultoria Rystad Energy ouvido pelo jornal, conectar uma estrutura de 100 megawatts à rede elétrica pode levar cerca de sete anos. Com turbinas adaptadas, esse prazo poderia cair para aproximadamente dois anos.
A diferença é importante para as empresas de inteligência artificial, que precisam ampliar rapidamente sua capacidade computacional. Os data centers consomem grandes volumes de eletricidade e dependem de fornecimento contínuo para manter servidores, sistemas de processamento e equipamentos de refrigeração funcionando.
Motores militares poderiam gerar 40 mil megawatts
O potencial dessa tecnologia também aparece em um levantamento da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos. Em janeiro, o órgão estimou que os motores de aproximadamente 4 mil aeronaves militares aposentadas, armazenadas em uma base no deserto de Tucson, poderiam alcançar uma capacidade de geração de cerca de 40 mil megawatts.
O volume seria maior do que toda a capacidade de geração de energia do estado do Arizona.
A estimativa ajuda a dimensionar o interesse pelo reaproveitamento desses equipamentos. Originalmente projetados para impulsionar aeronaves, os motores podem passar por adaptações para operar como turbinas geradoras de eletricidade.
xAI e OpenAI já utilizam turbinas adaptadas
Entre as empresas que recorreram a essa alternativa está a xAI, companhia de inteligência artificial de Elon Musk. Segundo o The New York Times, oito turbinas convertidas de motores de aeronaves foram instaladas no Mississippi para ajudar no abastecimento do data center Colossus 2, em Memphis.
A presença dos equipamentos foi identificada pelo jornal a partir de licenças estaduais e imagens de satélite.
A OpenAI também utilizou uma solução semelhante em seu primeiro complexo Stargate, localizado em Abilene, no Texas. Em 2025, a empresa recorreu a turbinas a gás para ampliar a oferta de eletricidade necessária ao funcionamento da estrutura.
O movimento acompanha a expansão dos investimentos em inteligência artificial. Com a disputa por capacidade de processamento cada vez maior, as empresas buscam alternativas para evitar que a falta de energia atrase a construção e a operação de novos centros de dados.
Organizações ambientais apontam riscos de poluição
Apesar da rapidez na instalação, o uso de motores adaptados tem provocado críticas de organizações ambientais e moradores das regiões próximas aos empreendimentos.
As principais preocupações envolvem a eficiência energética dos equipamentos e a emissão de poluentes. No Mississippi, o Centro de Direito Ambiental do Sul (SELC) contestou a autorização para o funcionamento das turbinas utilizadas pela xAI.
A entidade questionou a documentação apresentada pelo fabricante e afirmou que não havia comprovação suficiente de que os equipamentos atendiam às exigências ambientais relacionadas à emissão de substâncias como o formaldeído. O grupo também acusou a empresa de apresentar estimativas abaixo do esperado para a quantidade de poluentes liberados.
Patrick Anderson, advogado do SELC, criticou a escolha de uma tecnologia considerada mais poluente justamente por empresas que estão na linha de frente do desenvolvimento tecnológico. Na avaliação dele, a expansão da inteligência artificial deveria ser acompanhada por soluções de geração de energia menos prejudiciais ao meio ambiente.
Outro problema apontado é que turbinas adaptadas de motores de aviões podem apresentar eficiência inferior à de equipamentos projetados especificamente para usinas a gás natural. Com isso, seria necessário utilizar mais unidades para produzir a mesma quantidade de eletricidade.
A utilização desses motores mostra o tamanho do desafio energético provocado pela expansão da inteligência artificial. Enquanto as empresas tentam garantir eletricidade em menos tempo para ampliar seus data centers, cresce também a discussão sobre os impactos ambientais das soluções escolhidas para sustentar essa expansão.
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