Uma empresa de biotecnologia dos Estados Unidos está utilizando cérebros humanos inteiros, retirados de pessoas já falecidas e destinados legalmente à pesquisa, para avaliar como células e tecidos cerebrais reagem a medicamentos experimentais. Embora a tecnologia tenha sido descrita de forma sensacionalista como o uso de “cérebros mortos-vivos”, o procedimento não ressuscita o órgão nem recupera consciência, pensamentos, memória ou sensações.
A responsável pela plataforma é a Bexorg, empresa sediada em New Haven, no estado norte-americano de Connecticut. A companhia foi fundada em 2021 pelos pesquisadores Zvonimir Vrselja e Nenad Sestan, ligados à Universidade Yale, e desenvolve aplicações comerciais e científicas baseadas no sistema BrainEx.
A tecnologia utiliza uma máquina de perfusão para fazer circular pelos vasos do cérebro uma solução especialmente formulada, comparada pela empresa a um sangue artificial. O líquido fornece oxigênio e outros componentes necessários à preservação temporária de atividades celulares, metabólicas e moleculares.
Segundo a Bexorg, esse processo permite que pesquisadores observem o comportamento do tecido cerebral, acompanhem a absorção de substâncias e analisem as alterações provocadas por medicamentos, terapias genéticas e outros tipos de intervenção. Os cérebros permanecem conectados ao equipamento por períodos que, normalmente, não ultrapassam 24 horas.
Órgãos são obtidos por meio de autorização específica
Os cérebros utilizados nas pesquisas são provenientes de doadores que autorizaram, em vida, o uso de tecidos para fins científicos, ou de famílias que concederam a permissão após a morte. A autorização comum para doação de órgãos não é suficiente: o emprego do cérebro em pesquisas exige consentimento específico.
A empresa afirma que a retirada do cérebro somente ocorre depois da declaração formal da morte e que o procedimento não interfere na doação de órgãos destinados a transplantes. Após a remoção, o cérebro permanece completamente separado do corpo, dos nervos e dos órgãos sensoriais e é transportado para o laboratório da companhia.
O sistema pode trabalhar tanto com cérebros de pessoas que apresentavam doenças neurológicas quanto com órgãos sem diagnóstico conhecido dessas enfermidades. Um cérebro proveniente de um doador com Parkinson, por exemplo, pode ser utilizado para investigar a resposta celular a uma substância desenvolvida para combater a doença.
Os pesquisadores também podem empregar marcadores para mapear conexões internas, comparar estruturas saudáveis e doentes ou estudar os possíveis efeitos da edição genética sobre mecanismos associados à degeneração cerebral.
Pesquisa começou com cérebros de porcos
A base científica da tecnologia foi apresentada em 2019 em um estudo publicado na revista Nature. Na ocasião, pesquisadores de Yale conectaram cérebros de porcos ao BrainEx quatro horas depois da morte dos animais.
O equipamento restaurou a microcirculação e determinadas atividades moleculares, metabólicas e celulares. Também foram observadas preservação da arquitetura dos tecidos, redução da morte celular e recuperação de algumas respostas vasculares e inflamatórias.
O estudo, no entanto, não identificou atividade elétrica global organizada, característica necessária para funções cerebrais integradas. Os cientistas ressaltaram que não havia sinais relacionados à percepção, consciência ou funcionamento normal do cérebro.
A experiência demonstrou que algumas células cerebrais podem conservar capacidade de recuperação durante um período maior do que se acreditava anteriormente. Isso não significa que o cérebro tenha voltado à vida, mas que determinadas estruturas biológicas continuaram capazes de responder quando receberam condições artificiais adequadas.
Não existe retomada da consciência
A Bexorg afirma que os cérebros humanos utilizados em seus experimentos não apresentam a atividade elétrica necessária para pensamentos, consciência ou sensações físicas. De acordo com a empresa, o líquido empregado na perfusão não fornece energia suficiente para que as células funcionem como em um cérebro humano vivo.
Como medida adicional de precaução, a solução também contém anestésico em concentração que impediria o surgimento de consciência mesmo em um cérebro com condições normais de funcionamento. A companhia declara ter realizado centenas de experimentos monitorados com cérebros humanos e suínos sem registrar sinais de atividade consciente.
O estudo original publicado pela Nature já havia apontado ausência de atividade elétrica cerebral global nos cérebros de porcos. Os pesquisadores responsáveis afirmaram que o material era celularmente ativo, mas não poderia ser classificado clinicamente como um cérebro vivo.
Por esse motivo, expressões como “ressuscitar cérebros” ou “cérebros mortos-vivos” não descrevem corretamente o procedimento. O que ocorre é a preservação ou restauração temporária de funções celulares específicas em um órgão isolado após a morte do doador.
Testes de medicamentos e inteligência artificial
A plataforma foi desenvolvida para enfrentar uma das principais dificuldades da pesquisa neurológica: medicamentos que apresentam bons resultados em células cultivadas ou em animais frequentemente não produzem os mesmos efeitos em seres humanos.
Ao testar substâncias diretamente em tecidos cerebrais humanos metabolicamente ativos, a empresa pretende obter informações mais próximas da realidade biológica dos pacientes. Entre os dados observados estão a distribuição do medicamento, sua chegada às células-alvo, as alterações moleculares produzidas e possíveis indicadores de eficácia ou toxicidade.
Em 2025, a Bexorg anunciou uma colaboração com a farmacêutica Biohaven para estudar dois programas pré-clínicos de tratamentos destinados ao sistema nervoso central. A plataforma deverá avaliar o alcance das substâncias nos tecidos, o mecanismo de ação e possíveis biomarcadores que possam orientar etapas posteriores de desenvolvimento.
Os dados obtidos nos experimentos também são utilizados para alimentar modelos de inteligência artificial. A proposta é criar sistemas capazes de comparar respostas biológicas, identificar alvos terapêuticos e ajudar empresas farmacêuticas a decidir quais medicamentos devem avançar para os testes clínicos.
A Bexorg informou ter ampliado sua base de dados com centenas de experiências envolvendo cérebros afetados por Alzheimer, Parkinson e outras condições neurodegenerativas. A companhia, entretanto, ainda precisa demonstrar em estudos clínicos e publicações independentes até que ponto os resultados produzidos pela plataforma poderão prever a eficácia de tratamentos em pacientes vivos.
Tecnologia amplia debate ético
A possibilidade de manter atividades celulares em cérebros humanos após a morte também provoca discussões sobre consentimento, limites da experimentação e critérios para identificar eventuais sinais de atividade cerebral organizada.
A Bexorg afirma trabalhar sob normas legais e éticas e contar com um conselho independente de especialistas em bioética. A empresa também declara que os órgãos são tratados de maneira respeitosa e que os tecidos não utilizados em novos estudos são descartados conforme as regras aplicáveis a materiais humanos.
A inovação não representa o retorno de uma pessoa à vida. Ainda assim, permite observar processos celulares em um cérebro humano inteiro de uma maneira que não era possível com amostras isoladas, culturas celulares ou modelos animais.
Caso consiga demonstrar que os resultados ajudam a prever com maior precisão a resposta de pacientes, a tecnologia poderá contribuir para reduzir custos, eliminar medicamentos pouco promissores nas etapas iniciais e acelerar a busca por tratamentos contra doenças neurológicas graves.
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