Uma estratégia destinada a explorar fragilidades metabólicas das células cancerígenas colocou o cientista brasileiro José Pedro Friedmann Angeli entre os principais nomes reconhecidos pela oncologia na Alemanha.
O pesquisador recebeu o Prêmio Alemão do Câncer de 2026 por estudos dedicados à ferroptose, um tipo de morte celular associado ao ferro e ao acúmulo de danos oxidativos nas gorduras que formam as membranas das células.
O objetivo das pesquisas é compreender como esse processo pode ser provocado seletivamente em tumores, reduzindo seu crescimento e dificultando a disseminação das células malignas para outros órgãos.
A premiação foi entregue em junho de 2026, em Berlim. Angeli foi homenageado na categoria Pesquisa Experimental ao lado de Marcus Conrad, diretor do Instituto de Metabolismo e Morte Celular do centro Helmholtz Munich.
Concedido pela Sociedade Alemã do Câncer e pela Fundação Alemã do Câncer, o prêmio contempla quatro categorias. Cada uma delas é acompanhada de uma recompensa financeira de 7,5 mil euros.
Atualmente, José Pedro Friedmann Angeli atua como professor de Biologia Celular Translacional no Centro Rudolf Virchow da Universidade de Würzburg, na Alemanha. Seu trabalho procura identificar os mecanismos responsáveis pela morte de células tumorais e avaliar como essas descobertas podem contribuir para novas terapias contra o câncer.
Ferroptose provoca colapso da célula
A ferroptose ocorre quando uma célula deixa de controlar adequadamente a oxidação dos lipídios, substâncias gordurosas que exercem papel fundamental na formação das membranas celulares.
O ferro participa de reações químicas capazes de gerar moléculas oxidantes. Quando os sistemas de proteção não conseguem neutralizar essas reações, os danos se acumulam e comprometem a estrutura da célula até provocar seu colapso.
O mecanismo é diferente de outras formas de morte celular já conhecidas. Por estar diretamente associado ao metabolismo do ferro e à oxidação das gorduras, passou a ser investigado como uma possível alternativa para atacar tumores resistentes a tratamentos convencionais.
As células cancerígenas precisam manter uma atividade metabólica intensa para continuar crescendo e se multiplicando. Essa condição pode elevar a produção de substâncias oxidantes e tornar os tumores mais dependentes de sistemas antioxidantes.
A proposta dos pesquisadores é transformar essa dependência em uma vulnerabilidade. Ao bloquear as defesas responsáveis por evitar a oxidação dos lipídios, seria possível aumentar os danos dentro das células malignas até provocar sua destruição.
Estudos começaram com pesquisas sobre oxidação
A trajetória que levou Angeli ao reconhecimento internacional teve origem em pesquisas iniciadas ainda no Brasil. Na época, o cientista estudava a bioquímica da peroxidação lipídica, nome dado ao processo de degradação oxidativa das gorduras presentes nas membranas celulares.
Esse fenômeno ocorre quando moléculas lipídicas são atingidas por agentes oxidantes. Caso as defesas da célula não interrompam a reação, os danos podem se espalhar e comprometer sua integridade.
Os estudos conduzidos por Angeli passaram a se aproximar das investigações desenvolvidas pelo grupo de Marcus Conrad sobre a enzima glutationa peroxidase 4, conhecida como GPX4.
Essa enzima funciona como um importante mecanismo de proteção contra a oxidação dos lipídios. Pesquisas do grupo demonstraram que a ausência ou a perda de atividade da GPX4 pode desencadear uma forma específica de morte celular, posteriormente associada à ferroptose.
A colaboração entre os cientistas ampliou o conhecimento sobre as condições que tornam determinadas células cancerígenas mais vulneráveis a esse mecanismo.
Os trabalhos também revelaram algumas das estratégias utilizadas pelos tumores para neutralizar os danos oxidativos, reorganizar o metabolismo e manter seus sistemas de defesa em funcionamento.
A identificação dessas rotas de resistência é considerada fundamental para o desenvolvimento de medicamentos. Ao compreender como as células malignas escapam da ferroptose, os pesquisadores podem buscar formas de bloquear essa proteção.
Ao receber o prêmio, Angeli destacou a importância da parceria mantida com Marcus Conrad. Parte relevante dos avanços alcançados na área surgiu da colaboração entre os grupos coordenados pelos dois pesquisadores.
Compostos buscam estimular morte de tumores
Com base no conhecimento acumulado sobre os mecanismos de resistência, Angeli e Conrad passaram a trabalhar no desenvolvimento de compostos capazes de induzir a ferroptose diretamente nas células tumorais.
A estratégia consiste em interferir nas proteínas e reações químicas utilizadas pela célula para impedir a oxidação de seus lipídios. Sem essas barreiras, os danos se acumulam nas membranas até provocar a destruição da estrutura celular.
Experimentos pré-clínicos realizados em modelos com camundongos apresentaram resultados considerados promissores. Em determinadas condições, os compostos testados reduziram o crescimento de tumores e impediram a formação de metástases.
Apesar dos avanços, esses resultados ainda pertencem às fases experimentais da pesquisa. A possível utilização da ferroptose em tratamentos para seres humanos depende de estudos adicionais de segurança, definição de dosagens e realização de ensaios clínicos.
Estratégia pode dificultar metástases
A metástase ocorre quando células cancerígenas se desprendem do tumor original, alcançam a corrente sanguínea ou o sistema linfático e chegam a outras regiões do organismo.
Ao se estabelecerem em novos tecidos, essas células podem formar tumores secundários, tornando o tratamento mais complexo e reduzindo as possibilidades de controle da doença.
Durante o deslocamento pelo organismo, as células tumorais enfrentam condições de forte estresse. Elas precisam sobreviver fora do ambiente original, resistir às defesas do corpo e adaptar seu metabolismo para formar uma nova lesão.
Pesquisadores estudam se a indução da ferroptose pode impedir que essas células sobrevivam durante esse percurso e se instalem em outros órgãos.
A estratégia também pode ser relevante para tumores que desenvolveram resistência à quimioterapia, à radioterapia ou a medicamentos de ação direcionada.
Em alguns casos, as alterações que permitem às células sobreviver a determinados tratamentos podem aumentar sua dependência dos sistemas que bloqueiam a ferroptose. A interrupção dessas defesas poderia, portanto, atingir células que permaneceriam vivas depois de outras terapias.
Desafio é preservar tecidos saudáveis
Um dos principais obstáculos para a transformação da descoberta em tratamento é fazer com que a ferroptose seja estimulada nas células tumorais sem provocar danos expressivos nos tecidos saudáveis.
Como o ferro, os lipídios e os mecanismos antioxidantes também estão presentes nas células normais, a ativação indiscriminada do processo poderia causar efeitos indesejados.
Por esse motivo, os cientistas buscam identificar proteínas, genes e características metabólicas mais importantes para o câncer do que para as células saudáveis.
A seleção adequada desses alvos pode permitir o desenvolvimento de medicamentos capazes de atuar preferencialmente sobre os tumores.
Outra possibilidade estudada é combinar indutores de ferroptose com tratamentos já utilizados. Essa associação poderia aumentar a eficácia contra tumores resistentes e permitir o uso de doses menores de determinados medicamentos.
Pesquisador acumula reconhecimentos
O Prêmio Alemão do Câncer de 2026 amplia a lista de reconhecimentos obtidos por José Pedro Friedmann Angeli ao longo de sua carreira científica.
Desde 2021, o brasileiro aparece entre os pesquisadores mais citados em sua área de atuação. A presença nessas classificações indica que seus trabalhos são utilizados com frequência como referência por outros cientistas.
As citações acadêmicas estão entre os indicadores usados para avaliar a influência de uma pesquisa dentro da comunidade científica, embora não sejam o único critério de qualidade ou impacto.
Em 2023, Angeli recebeu uma bolsa do Conselho Europeu de Pesquisa, conhecido pela sigla ERC. O financiamento é direcionado a cientistas que coordenam linhas próprias de investigação e buscam consolidar equipes e projetos.
Em 2025, o brasileiro obteve recursos complementares da mesma instituição. Essa modalidade de apoio permite ampliar a estrutura necessária para pesquisas consideradas de elevado potencial científico.
Os investimentos podem ser utilizados na contratação de pesquisadores, na compra de equipamentos e na realização de experimentos de maior complexidade.
No caso de Angeli, os recursos contribuem para aprofundar as investigações sobre metabolismo celular, oxidação de lipídios e mecanismos capazes de provocar a morte de células malignas.
Nova possibilidade no enfrentamento ao câncer
A ferroptose passou a receber atenção crescente na pesquisa oncológica por oferecer uma forma diferente de explorar características específicas dos tumores.
Em vez de atacar apenas a divisão celular, como ocorre em parte dos tratamentos tradicionais, a estratégia procura atingir a maneira como as células cancerígenas lidam com o ferro, as gorduras e o estresse oxidativo.
A intensa atividade metabólica necessária para sustentar o crescimento do tumor pode se transformar em um ponto vulnerável. Quanto maior a produção de moléculas oxidantes, maior tende a ser a dependência de sistemas capazes de impedir danos irreversíveis.
Ao desativar essas proteções, os cientistas esperam levar as células malignas a um nível de oxidação incompatível com sua sobrevivência.
As descobertas de José Pedro Friedmann Angeli e Marcus Conrad ajudaram a estabelecer bases importantes para essa área de investigação. Os estudos contribuíram tanto para explicar o funcionamento da ferroptose quanto para estimular o desenvolvimento de compostos destinados a provocar o processo em tumores.
Ainda não há garantia de que os resultados experimentais se transformarão em medicamentos disponíveis para pacientes. No entanto, as evidências obtidas até agora reforçam a ferroptose como uma frente promissora de pesquisa contra o crescimento tumoral, a resistência aos tratamentos e a formação de metástases.
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