Um abismo cognitivo cada vez maior está se aprofundando em nossa sociedade, refletindo as diferenças na forma como crianças de classes sociais distintas interagem com a informação. Um relatório do The New York Times destaca que o fenômeno conhecido como “efeito Flynn” — o aumento constante das habilidades de raciocínio e alfabetização ao longo das últimas décadas — está começando a se reverter. As quedas mais acentuadas são observadas entre as populações mais pobres, justamente no momento em que a cultura digital, dominada por vídeos curtos, memes e redes sociais, substitui a leitura de textos mais complexos.
O estudo compara o consumo excessivo de conteúdos digitais a uma “dieta de junk food cognitiva”. Assim como alimentos ultraprocessados, esse tipo de conteúdo é acessível, viciante e consumido desproporcionalmente por camadas mais vulneráveis da população. O resultado é uma espécie de “obesidade cognitiva”, que molda cérebros acostumados à distração constante e à leitura superficial, em vez de desenvolver a concentração e o pensamento crítico.
Renda menor, mais tempo nas telas
Dados mostram que crianças de famílias de baixa renda passam em média duas horas a mais por dia em frente às telas do que aquelas de famílias mais abastadas, ampliando a desigualdade de oportunidades desde a infância. Além disso, o acesso a materiais clássicos de leitura também é mais restrito para essas crianças.
O paradoxo é que as elites econômicas e tecnológicas, frequentemente responsáveis por criar essas plataformas viciantes, adotam uma postura contrária em seus próprios lares. Nomes como Bill Gates, por exemplo, são conhecidos por restringir o uso de telas entre seus filhos.
Nos Estados Unidos, escolas de elite que proíbem celulares e priorizam a leitura de clássicos literários, com mensalidades superiores a 30 mil dólares anuais, ganham destaque. Nestes ambientes, a capacidade de concentração e o desenvolvimento de um raciocínio profundo são tratados como valores preciosos a serem preservados.
Pensamento crítico em risco
Enquanto isso, a educação pública, com menos recursos e salas superlotadas, luta para competir com a atração dos dispositivos digitais. Como resultado, o pensamento crítico está se tornando um privilégio para poucos.
Especialistas alertam que, se essa tendência persistir, as consequências para a sociedade serão severas: um eleitorado mais impulsivo, menos racional e mais vulnerável à desinformação. A desigualdade social poderá se aprofundar não só economicamente, mas também intelectualmente.
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