O tratamento da obesidade com semaglutida ganhou uma nova opção no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou nesta quarta-feira (4) o Wegovy em comprimido, primeira versão oral de um agonista de GLP-1 autorizada no país especificamente para perda e manutenção do peso. Até agora, o medicamento estava disponível para essa finalidade apenas na forma injetável.
A novidade traz uma pergunta inevitável: tomar um comprimido todos os dias pode produzir o mesmo resultado da conhecida caneta semanal? Os estudos apontam perdas de peso semelhantes às observadas anteriormente com a semaglutida injetável de 2,4 mg. Isso, porém, não significa que as duas apresentações tenham sido colocadas frente a frente no mesmo ensaio clínico.
A principal evidência usada pela Anvisa veio do OASIS 4, estudo publicado no New England Journal of Medicine. A pesquisa acompanhou 307 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a alguma complicação relacionada ao peso, todos sem diabetes. Ao final de 64 semanas, o grupo que recebeu semaglutida oral de 25 mg perdeu, em média, 13,6% do peso corporal. Entre os participantes que receberam placebo, a redução foi de 2,2%.
Quando os pesquisadores analisaram os participantes que permaneceram no tratamento conforme planejado, a redução média chegou a 16,6%. São resultados expressivos, mas representam duas formas diferentes de calcular a resposta ao medicamento. Por isso, usar apenas o número mais alto sem explicar a metodologia pode dar uma impressão exagerada da eficácia.
Resultados são próximos, mas estudos não compararam as duas versões diretamente
A semaglutida injetável de 2,4 mg já havia apresentado redução média próxima de 15% do peso em estudos anteriores. É essa proximidade que permite afirmar que as duas formulações tiveram resultados semelhantes em pesquisas distintas. No entanto, não houve uma comparação clínica direta entre o comprimido de 25 mg e a caneta de 2,4 mg dentro do OASIS 4.
Essa diferença metodológica é importante porque grupos de pacientes, duração dos estudos, adesão ao tratamento e outros fatores podem influenciar os resultados. Assim, não é possível afirmar que cada pessoa perderá exatamente o mesmo peso ao trocar uma apresentação pela outra.
A comparação também ficou mais complexa em 2026. A Anvisa aprovou uma dose injetável maior do Wegovy, de 7,2 mg, para determinados adultos com obesidade. Estudos avaliados pela agência mostraram que essa dose pode proporcionar perda adicional de peso em relação à versão de 2,4 mg, embora o benefício extra tenha sido mais expressivo em uma parcela dos pacientes.
Por isso, dizer simplesmente que “o comprimido emagrece tanto quanto a caneta” é uma simplificação. A afirmação faz sentido quando a referência é a dose injetável de 2,4 mg e quando se reconhece que a comparação vem de pesquisas separadas.
Comprimido muda a rotina do tratamento
Embora contenham o mesmo princípio ativo, as duas apresentações funcionam de maneiras diferentes na rotina. A versão injetável é aplicada uma vez por semana. Já o Wegovy oral deve ser tomado diariamente.
O esquema aprovado pela Anvisa começa com 1,5 mg e avança gradualmente para 4 mg e 9 mg até atingir a dose de manutenção de 25 mg por dia. O aumento progressivo busca melhorar a tolerabilidade ao medicamento.
A administração também exige disciplina. O comprimido deve ser tomado em jejum, com pequena quantidade de água, e o paciente precisa esperar pelo menos 30 minutos antes de comer, beber ou utilizar outros medicamentos. A orientação existe porque alimentos e líquidos podem interferir na absorção da semaglutida oral.
Essa característica pode pesar na decisão entre comprimido e caneta. Para algumas pessoas, evitar injeções pode tornar o tratamento mais confortável. Para outras, uma aplicação semanal pode ser mais simples do que lembrar de um comprimido diariamente e seguir as regras de jejum.
Efeitos adversos continuam principalmente gastrointestinais
O perfil de segurança da versão oral segue o padrão já conhecido dos agonistas de GLP-1. No OASIS 4, eventos gastrointestinais ocorreram em 74% dos participantes que receberam semaglutida oral, contra 42,2% no grupo placebo. Náusea, vômitos, diarreia, constipação e desconforto abdominal estão entre as reações mais frequentes.
A maioria dos eventos relatados no estudo teve intensidade leve ou moderada. Ainda assim, o medicamento exige prescrição e acompanhamento médico. No Brasil, os agonistas de GLP-1 estão sujeitos à retenção da receita nas farmácias desde 2025.
Também não se deve confundir o novo Wegovy oral com o Rybelsus. Os dois contêm semaglutida, mas foram registrados com doses e indicações diferentes. O Rybelsus já existe no país há anos e tem indicação para diabetes tipo 2, enquanto o Wegovy de 25 mg recebeu aprovação específica para controle crônico do peso.
Aprovação não significa chegada imediata às farmácias
A autorização da Anvisa permite que a nova apresentação seja comercializada no Brasil, mas isso não significa disponibilidade imediata nas prateleiras. A Novo Nordisk informou que espera colocar o Wegovy em comprimido nas farmácias brasileiras nos próximos trimestres. Até agora, não divulgou uma data específica de lançamento nem preço para o país.
A chegada da versão oral amplia as possibilidades para quem tem indicação de tratamento farmacológico da obesidade. Não transforma, porém, comprimido e caneta em alternativas automaticamente equivalentes para qualquer paciente.
Os estudos mostram que a semaglutida oral pode produzir uma perda de peso relevante e próxima da observada com a injeção semanal de 2,4 mg. A escolha entre as duas apresentações dependerá de fatores como tolerabilidade, rotina, resposta clínica, condições de saúde e orientação médica.
A grande novidade, portanto, não é que a caneta tenha sido substituída. É que o mesmo princípio ativo passa a oferecer caminhos diferentes para um tratamento que precisa ser individualizado e acompanhado ao longo do tempo.
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